A tradição, a memória e a capacidade de se reinventar estão no centro da 16ª edição do Festival Fado, que retorna à capital federal entre os dias 7 e 9. Com o tema “O Fado e os bairros de Lisboa”, o evento reúne música, cinema, exposição e debates sobre a relação entre o gênero musical e os territórios que ajudaram a construir sua identidade. Entre os destaques da programação estão as apresentações dos cantores portugueses Sara Correia e Camané, ainda nos mesmos dias, respectivamente, na Sala Martins Pena do Teatro Nacional Claudio Santoro.
Mais do que celebrar uma das expressões mais reconhecidas da cultura portuguesa, a edição propõe um olhar sobre as histórias, os personagens e as comunidades que mantêm o fado vivo. Em entrevista, os dois artistas falaram sobre suas trajetórias, a importância de preservar as raízes do gênero e os caminhos para renovar uma tradição que atravessa gerações.
Entre a tradição e a renovação do fado
Com uma trajetória construída desde a infância, Camané define o fado como parte inseparável de sua história. O cantor começou a se apresentar aos 10 anos, embora tenha interrompido temporariamente a carreira durante a transição vocal. Aos 13, venceu a Grande Noite do Fado de Lisboa, dando início a uma trajetória que se consolidaria nas décadas seguintes.
“No fundo, o fado é a minha vida. Comecei a cantar com 10 anos e, a partir daí, fui construindo a minha carreira. Houve uma interrupção, porque passei por uma transição de voz, mas depois voltei a fazer aquilo de que gosto, aquilo em que acredito”, relembra. Para ele, a relação com o gênero permanece em constante movimento. “Quando olho para trás, é isso que permanece. O fado faz parte da minha vida e continuo a acreditar que o melhor está por vir.”
A preservação dessa identidade, no entanto, não significa manter a música presa ao passado. Na avaliação do artista, a evolução precisa acontecer sem descaracterizar os elementos que definem o gênero. “Acredito que o fado deve evoluir de dentro para fora. É importante manter a sua estética, o ambiente musical que o caracteriza, mas também viver e representar os tempos atuais”, explica.
Camané aponta a poesia e as histórias contadas nas canções como caminhos para essa transformação. Um exemplo está no trabalho desenvolvido ao lado do pianista Mário Laginha, com quem lançou o álbum Aqui está-se sossegado, indicado ao Grammy Latino. A parceria também representa uma maneira de revisitar a história do gênero.
“No início da sua história, o fado também foi tocado ao piano, antes de a guitarra portuguesa assumir o protagonismo. Cantar acompanhado pelo piano foi uma forma de olhar para o passado e, ao mesmo tempo, trazer uma perspetiva diferente para o presente”, conta. Segundo ele, a experiência permitiu explorar novas possibilidades sem abandonar a essência musical. “O ritmo, o tempo e os elementos essenciais do fado continuaram muito presentes.”

As histórias de Lisboa na voz dos artistas
Representante de uma geração mais recente, Sara Correia também encontrou nos bairros populares de Lisboa as referências que moldaram sua identidade musical. Criada em contato com as casas tradicionais de fado, a cantora começou a se apresentar ainda jovem e construiu uma carreira marcada pelo diálogo entre a herança portuguesa e novas possibilidades sonoras.
Em 2018, lançou seu primeiro álbum, que leva seu nome. Três anos depois, Do Coração recebeu indicação ao Grammy Latino. Em seu trabalho mais recente, Tempestade, a artista explora diferentes emoções e aborda temas que ultrapassam a saudade e a melancolia frequentemente associadas ao gênero.
“Uma tradição se mantém viva quando não fica parada no tempo, mas é reinterpretada por cada geração. É possível respeitar o fado e, ao mesmo tempo, encontrar uma voz própria dentro dele”, afirma.
Para Sara, a música permite abordar sentimentos diversos e dar visibilidade a histórias que nem sempre encontram espaço. “Não consigo fazer um disco dedicado apenas a uma emoção. O fado tem a dor e a saudade, mas também tem força, resistência, orgulho e uma enorme capacidade de superação.”
A cantora também destaca o interesse em explorar a experiência feminina em suas composições. “Interessa-me muito cantar sobre as mulheres, as suas histórias e a capacidade que temos de continuar. Para mim, o fado pode ser dor, mas também pode ser cura. Pode falar de perda, mas também de recomeço.”
A relação com os bairros lisboetas, tema central desta edição do festival, também atravessa sua maneira de interpretar o gênero. Sara conta que as casas de fado, as pessoas e as histórias que conheceu nesses espaços continuam presentes em sua música. Para ela, preservar essa identidade significa, sobretudo, não perder a autenticidade.
“Acredito que a autenticidade começa por não tentarmos ser aquilo que não somos. Quando canto fora de Portugal, não sinto que tenha de transformar o fado para que as pessoas o entendam. Levo comigo a mesma verdade com que cantaria numa casa de fados ou num concerto em Portugal”, explica.
Camané também vê os bairros populares como parte fundamental da memória musical portuguesa. Para o cantor, as transformações da cidade devem ser acompanhadas pela renovação das histórias contadas pelo gênero, sem que suas referências sejam esquecidas.

Festival aproxima Brasil e Portugal por meio da música
A aproximação cultural entre os dois países é outro aspecto destacado pelos artistas. Com apresentações em diferentes partes do mundo, Camané considera que levar o fado ao público brasileiro representa uma oportunidade de fortalecer uma relação que já existe por meio da música popular.
“Em Portugal, temos um conhecimento muito grande do samba, da bossa nova e da música popular brasileira. É muito importante que o Brasil também conheça o fado, porque a música é uma forma de nos aproximarmos uns dos outros”, afirma.
O cantor espera que o público se envolva com as histórias apresentadas nas canções. “Espero que o público se emocione com as músicas, assim como eu, e que possa refletir sobre aquilo que estou a cantar. É uma forma de nos identificarmos com os laços que nos unem.”
Sara compartilha da mesma percepção e acredita que a conexão emocional ultrapassa as barreiras do idioma. “Levar o fado ao público brasileiro é também levar um bocadinho da nossa essência, da nossa cultura e da nossa história. Portugal e Brasil têm uma ligação cultural e afetiva muito forte”, destaca.
Para a artista, mesmo quem não compreende todas as palavras consegue se conectar com o que está sendo cantado. “O fado é uma forma muito própria de sentir e contar histórias. Mesmo quando alguém não compreende todas as palavras, pode sentir aquilo que estamos a cantar. É essa verdade, essa emoção e essa ligação às minhas raízes que procuro transmitir em cada apresentação.”
Além dos shows, o Festival Fado promove atividades que ampliam a discussão sobre a relação entre a música e os territórios de Lisboa. A exposição “Os Bairros de Lisboa”, com curadoria do Museu do Fado, reúne imagens, personagens e referências dos bairros populares que ajudaram a construir a memória fadista.
A programação também inclui o documentário Do Bairro, dirigido pelo cineasta português Diogo Varela Silva. A produção percorre Alfama e Mouraria, no centro histórico de Lisboa, acompanhando moradores, tradições e transformações dessas comunidades.
A programação musical começa sábado (7), às 20h, com Sara Correia, na Sala Martins Pena do Teatro Nacional Claudio Santoro. No dia seguinte, no mesmo horário e local, Camané sobe ao palco para apresentar um repertório que percorre diferentes momentos de sua carreira.
Já na segunda-feira (9), as atividades seguem na Universidade de Brasília (UnB). Às 11h, o compositor, produtor e guitarrista Diogo Clemente conduz uma palestra sobre a relação do fado com as ruas e os bairros de Lisboa. Às 12h, será exibido o filme Do Bairro.
SERVIÇO
Festival Fado Brasília 2026
7 a 9 de novembro
7 de novembro
20h – Sara Correia
Sala Martins Pena – Teatro Nacional Claudio Santoro
8 de novembro
20h – Camané
Sala Martins Pena – Teatro Nacional Claudio Santoro
9 de novembro – Universidade de Brasília (UnB)
11h – Palestra com Diogo Clemente
12h – Exibição do filme Do Bairro, de Diogo Varela Silva