A música de câmara volta a ocupar a Vila Planalto neste domingo (20), quando o projeto Conexões Camerísticas encerra sua temporada com duas apresentações gratuitas na Praça Nelson Corso. Os concertos acontecem às 15h30 e às 17h e reúnem diferentes formações musicais em uma programação pensada para aproximar a música instrumental do cotidiano do público.
A primeira apresentação fica por conta do grupo Manacá Brasil, formado por Vinicius Vianna, no violão; Mariana Sardinha, no cavaco; Jéssica Carvalho, na percussão; e Sammille Bonfim, na flauta. Na segunda sessão, Sammille Bonfim e Vinícius Vianna recebem a flautista Thanise Silva e o pandeirista Pardal para uma formação especial, responsável por marcar o encerramento da iniciativa.
Idealizado pela flautista Sammille Bonfim, o Conexões Camerísticas nasceu da vontade de levar a música de câmara para além dos espaços tradicionalmente associados aos concertos. Segundo a artista, a proposta surgiu do desejo de aproximar a música do público e também criar espaços de encontro entre músicos, estudantes e diferentes comunidades.
“Sempre me interessou pensar a música de câmara não apenas como uma prática artística, mas como uma possibilidade de diálogo e de formação de público”, explica Sammille.
A escolha da Vila Planalto também está ligada a essa proposta. Com uma identidade cultural própria e uma história diretamente relacionada à construção de Brasília, a região possui uma vida comunitária marcada pela ocupação dos espaços de convivência. Para Sammille, levar os concertos para as praças da Vila foi uma forma de romper com os locais tradicionais de apresentação e inserir a música na rotina dos moradores.
“Levar o projeto para as praças e espaços de convivência da Vila foi uma maneira de tirar a música de câmara de seus lugares mais tradicionais e colocá-la no cotidiano das pessoas”, afirma. “Para mim, foi muito significativo pensar que o público não precisava necessariamente ir a uma sala de concerto para encontrar a música. A música poderia ir até ele.”
Ao longo da temporada, cerca de 800 pessoas acompanharam as apresentações realizadas no local. Entre crianças, famílias, moradores da região e visitantes, o público foi ocupando a praça de maneira espontânea, muitas vezes sem ter planejado assistir aos concertos.
“Esses números são importantes porque mostram o alcance do projeto, mas, para mim, o mais significativo foi perceber a maneira como as pessoas foram se apropriando daquele espaço”, conta Sammille.
A artista lembra que parte do público passou a acompanhar mais de uma apresentação, enquanto outras pessoas tiveram o primeiro contato com a música de câmara ao simplesmente passar pela praça. “Em alguns momentos, havia pessoas que já conheciam o projeto e voltavam para outras apresentações; em outros, eram pessoas que estavam passando pela praça, ouviram a música e decidiram ficar.”

Para ela, essa aproximação espontânea reforça uma das principais propostas da iniciativa: mostrar que a música de concerto pode estar presente em diferentes contextos e alcançar públicos que nem sempre frequentam salas de concerto.
“Crianças, famílias, moradores da região e pessoas que talvez não tivessem o hábito de frequentar uma apresentação de música de câmara puderam ter esse contato de uma maneira muito espontânea”, destaca. “Quando criamos condições para que a música esteja presente em espaços públicos e de convivência, ela deixa de parecer distante e passa a fazer parte da vida cotidiana.”
Outro aspecto presente na temporada foi a diversidade de músicos e formações. O núcleo formado por Sammille Bonfim e Vinícius Vianna recebeu artistas convidados e apresentou repertórios que transitaram por compositores clássicos, contemporâneos e latino-americanos. A proposta também possibilitou o encontro entre músicos com diferentes trajetórias, estudantes e espectadores.
Embora seja difícil escolher apenas um momento como o mais marcante, Sammille destaca a abertura da edição na Vila Planalto. “Foi especialmente marcante para mim, justamente porque representou a concretização de uma ideia que vinha sendo construída há bastante tempo”, afirma.
A artista também ressalta o encontro entre diferentes gerações e experiências musicais como um dos pontos fortes do projeto. “O Conexões não se limita a apresentar concertos: ele cria encontros entre artistas, estudantes e público. Ver músicos com trajetórias diferentes compartilhando o mesmo espaço, e perceber a curiosidade e a receptividade do público, foi uma das partes mais bonitas da temporada.”
Para Sammille, é justamente essa capacidade de aproximar pessoas que dá significado ao nome do projeto. “Acho que esse é o próprio sentido da palavra ‘conexões’: não apenas conectar obras e músicos, mas conectar pessoas através da música.”
Com o encerramento da temporada, a expectativa da idealizadora é que a experiência deixe como legado uma nova percepção sobre os espaços que podem receber a música de câmara e sobre as possibilidades de acesso à produção artística.
“Espero que o principal legado seja a percepção de que a música de câmara pode ocupar diferentes espaços e dialogar com diferentes públicos. A Vila Planalto mostrou que uma praça também pode ser um lugar de escuta, de encontro e de experiência artística”, afirma.
Além da relação com a comunidade, Sammille acredita que a iniciativa contribui para ampliar a circulação da música de câmara em Brasília, valorizar os músicos e fortalecer a formação de público. Para ela, esse processo também passa pela construção de projetos que considerem as características de cada território.
“Podemos construir experiências pensando no território, nas pessoas e nas características de cada espaço”, explica. “A descentralização cultural não precisa significar levar simplesmente um concerto pronto para outro lugar.”
O encerramento, portanto, não representa apenas o fim de uma programação. Para Sammille, a experiência também abre espaço para novas possibilidades e reflexões sobre a relação entre artistas e público.
“Para mim, o encerramento de uma temporada também é o começo de novas perguntas. O Conexões Camerísticas continua me fazendo pensar em como podemos criar mais pontes entre a produção artística, os músicos, os estudantes e o público.”
A programação do dia 20 de setembro é gratuita e aberta ao público. Também haverá a possibilidade de participação solidária, com doação de alimentos não perecíveis.
Serviço
Conexões Camerísticas na Praça – Edição Especial – Encerramento
Domingo, 20 de setembro
Praça Nelson Corso – Vila Planalto
15h30 – Manacá Brasil, com Vinicius Vianna (violão), Mariana Sardinha (cavaco), Jéssica Carvalho (percussão) e Sammille Bonfim (flauta)
17h – Sammille Bonfim, Vinícius Vianna, Thanise Silva e Pardal
Entrada gratuita ou solidária, com opção de doação de alimentos não perecíveis
Classificação indicativa: livre
Realização: Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF)