No papel de um advogado carioca, ele vai procurar seduzir o público num turbilhão de sentimentos. Mas ele garante que dessa exposição à realidade saem todos vivos – melhor, adquirem um novo olhar sobre os altos e baixos da vida. O dramaturgo Hamilton Vaz Pereira volta a Brasília com a peça Mordendo os Lábios, em cartaz neste fim de semana no Teatro da Caixa, e conta ao Clicabrasília como concilia o trabalho de roteirista e diretor com as aventuras na atuação. Nome fundamental do teatro de vanguarda dos anos 1970, à frente do antológico Asdrúbal Trouxe o Trombone, ele fala sobre como a dramaturgia se renova, e sobre a importância de valorizar a produção local.
Mordendo os Lábios remete a essa questão de marcar, de o público se sentir tocado pelo o que viu. Como isso acontece?
Quando eu pensei em conceber o espetáculo, comecei pelo título. Mordendo os Lábios é uma expressão conhecida e extremamente sugestiva. Você morde os lábios porque está com medo diante de alguma coisa terrível, então você morde os lábios de pavor. Outra versão é morder os lábios de tesão, de vontade de comer aquela coisa ou aquela pessoa. Você se fere, mas isso tem o sentido de prazer. O espetáculo procura jogar o tempo todo com isso: dor e prazer. No primeiro momento aparenta ser uma comédia romântica, e num certo momento muda a chave teatral, que também é a chave da vida real, e de repente acontece uma terrível notícia, um acontecimento que estremece a família. Coisas horrorosas acontecem em cena e colocam à prova aquele bem-estar anterior. Morte, sequestro, roubo, doença, sexo em dificuldade, coisas pavorosas da vida urbana nossa. E tem o terceiro momento do espetáculo, onde os personagens convalescem, eles se alimentam do dia-a-dia para fortalecer a vida, para entender que a vida é isso mesmo: é dor e prazer o tempo todo. As pessoas saem emocionadas e, na minha pretensão de autor, eu fico querendo que o público saia com essa reconciliação entre dor e prazer.
Esse “tapa” na cara do público, quando todos estão com a guarda baixa, é uma forma de fazer as pessoas refletirem sobre a realidade?
Eu nunca tinha feito um espetáculo assim. Na verdade o público mais atento vai verificar que nessa meia hora que eu chamei de “comédia romântica”, aqui e ali o mais perspicaz dos espectadores vai perceber que não está tudo tão bem assim. Ele vai ver que tem pontos escuros. No entanto, vem uma avalanche de coisas ruins. Como a gente reage quanto a vida está boa e de repente fica ruim? Você passa a injuriar a vida? Ou pensa que o momento está pesado, mas que a vida é assim mesmo, que tem que lutar para ter uma alegria? O espetáculo procura dizer que, mesmo que a vida tenha pontos escuros, na parte terrível também há pontos claros. É tudo misturado. A vida não promete coisas boas, a vida não promete coisas más, a vida é.
Para o público se sentir parte do espetáculo, como a peça deve ser? Como você tenta fazê-lo?
Eu gosto sempre de pensar no meu expectador ideal, ele tem várias virtudes. A primeira é ele comarecer ao teatro, eu acho isso sensacional. A segunda grande virtude e qualidade do meu espectador ideal é ele não só comparecer ao teatro, como pagar a entrada, de preferência inteira. A terceira qualidade é aproveitar uma coisa que o teatro tem: quando o espetáculo começa, um ambiente de esquecimento paira no ar. A luz abaixa, começa a música, a cortina abre, entram os primeiros personagens. Essa onda de esquecimento faz com que o espectador comece a abir mão da vida real e embarcar no que está assistindo. Esse também pode ser chamado de espectador criador. Teatro não se faz com o que está no palco tão somente. Se faz a partir da criatividade do espectador, ele ajuda a cena com sua sensibilidade artística, ele colabora com a criação daquele momento teatral que envolve palco e platéia. Eu espero do espectador que ele seja tão criador quanto eu. Se ele não for, o espetáculo não vai acontecer nunca.
Além de escrever e dirigir a peça, você também é parte do elenco. Por que resolveu voltar a atuar?
Em boa parte dos meus espetáculos eu não atuo. Essa coisa já tinha bastante tempo. Quando eu comecei eu pensava em ser ator, depois eu vi que eu preferia mais organizar e dirigir a cena. Eu estreei há quase 40 anos como diretor, e em seguida eu me interessei pela autoria, para que eu pudesse expressar a minha maneira de ver o mundo. Tinha que dominar essa dobradinha que é a concepção do espetáculo e a realização dele. Então a atuação foi ficando para terceiro plano. Quando eu vi, fazia muito tempo em que eu não atuava. É uma maravilha, me sinto fazendo um check-up. Quando você está no palco parece que estão medindo a sua altura, o seu poder de sedução, a sua graça, o seu talento. É uma coisa que pode alimentar a pessoa, ou botar a pessoa para baixo.
Fazer tudo ao mesmo tempo faz a peça mais “sua”, ou é algo que consome muito?
Até a década de 1960 existia essa coisa das vanguardas, depois isso foi diluído, e ninguém mais fala em ser de vanguarda. Mas tem uma coisa enriquecedora que é o teatro ser o “seu teatro”, para cada um marcar suas diferenças ao observar as coisas da vida, a pressão artística de cada criador. Para mim, ter o poder de conceber, de realizar, de produzir o espetáculo, é uma certeza de que eu estou fazendo o espetáculo que eu quero. Evidente que a atividade teatral é coletiva, mas é muito cansativo, é estressante escrever, dirigir e atuar. Mas ao mesmo tempo é muito prazeroso. Eu me orgulho de fazer coisas que eu acho que o público nunca viu, daquela sensação de a gente querer oferecer ao público algo inédito.
Você falou em teatro de vanguarda. A sua companhia, Asdrúbal Trouxe o Trombone, ficou muito conhecida por ser percursora de um novo teatro. Ainda há espaço para se fazer coisas diferentes?
Quando Asdrúbal surgiu, havia na sociedade brasileira uma coisa claustrofóbica, da ditadura militar. O Asdrúbal surgiu no panorama teatral dentro desse momento onde grandes artistas das décadas de 1960 haviam abandonado o teatro para sobreviver na televisão, para existir em outros países, ou mudar de profissão. Durante dez anos ele foi um teatro inédito, com assuntos novos, uma maneira de afirmar a vida, etc. No entanto, o tempo passou. Hoje tem uma quantidade de possibilidades artísticas e meios de comunicação, e esse sentido da vanguarda está diluído em vários outros aspectos. Mas o palco existe há mais de 3 mil anos, e sempre o homem está inventando uma maneira nova de pensar; e o teatro é o que capta isso. Sempre haverá um espetáculo novo, sempre haverá ideias novas que brotam da ação teatral.
Há muita gente que reclama que os grandes espetáculos nunca vêm para Brasília, e que quando vêm o preço é muito alto. Você, que trabalhou com uma equipe brasiliense em 1992, acha que essa crítica é válida?
Eu diria que Brasília tem que fortalecer o teatro de Brasília. É impossível aqui não terem pessoas talentosas para as artes plásticas, para teatro, para música, para o vídeo. Eu penso que críticas são críticas, mas há criação, tem que se fortalecer o teatro de cada local. E esse teatro tem que ser potente, tem que ter visibilidade, impacto, auxílio do Estado. É muito interessante para as pessoas de Brasília assistir também a espetáculos que vêm do Amazonas, de Porto Alegre, do Recife, de outro países. Isso é bem vindo. Mas se as pessoas reclamam que o teatro de Brasília não é essas coisas, vamos fortalecer assistindo aos espetáculos, exigindo uma melhora.
E peças de grupos de comédia, são boas porque trazem gente nova ao teatro, ou não se qualificam como teatro?
O Rio de Janeiro, e acredito que em outras cidades, foi tomado pela comédia. De cinco anos para cá, não se entende mais comédia como comédia teatral. São espetáculos de “comédia em pé’, o comediante no microfone contando piadas sobre sua mãe, sobre homossexuais, ou sobre o governo. No Nordeste sempre teve isso nos bares, isso é encantador dependendo do comediante. Mas a expressão teatral é outra, requer uma dramaturgia, interpretação, luz, cenário, figurino, uma empatia diferente com o público. Eu não tenho nada contra o comediante se portar diante do público com as suas piadas, e do público quiser rir, agora considerar isso como teatro é um empobrecimento da arte teatral.Mordendo os Lábios – Sextas, 20h, sábados, 19h e 21h, e domingos, 19h. Ingressos a R$ 20 (inteira). Informações: 3206-9450. Não recomendado para menores de 14 anos.
Mordendo os Lábios – Até 8 de agosto. Sextas, 20h, sábados, 19h e 21h, e domingos, 19h. Ingressos a R$ 20 (inteira). Informações: 3206-9450. Não recomendado para menores de 14 anos.