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Em Ceilândia, projeto teatral muda a realidade de crianças em situação vulnerável

Arquivo Geral

22/07/2015 6h00

Lúria Rezende

Especial para o Jornal de Brasília

Usar a arte como meio para transformar a vida de aproximadamente 30 crianças em situação de rua é a meta atual da Companhia de Teatro La Casa Incierta. Estreia nesta sexta, no Teatro Sesc Newton Rossi (Ceilândia), o espetáculo Meninos da Guerra, que retrata a realidade de adolescentes em situação de acolhimento, interpretados por eles mesmos.

“Fomos instigados pela promotora de Justiça da Infância Luisa de Marillac. A partir daí fizemos um projeto, que foi aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), e pudemos unir o teatro ao trabalho social”, explica Clarice Cardell, uma das idealizadoras. Da concepção também faz parte o marido de Cardell, o espanhol Carlos Laredo, além da pesquisadora de oficinas de teatro Lívia Fernandes e o ator, cenógrafo e figurinista José Regino de Oliveira, do Celeiro das Antas.

Tudo começou com tímidas oficinas nos chamados abrigos, instituições do governo local que cuidam de crianças em situação de rua. “Nossa chegada foi devagar para podermos estabelecer um vínculo com os adolescentes. A partir daí começamos um laboratório para  entender o que se passa com eles e escrever as histórias em formato de roteiro”, conta Clarice. 

O espetáculo trabalha em cima da realidade desses jovens. “São as histórias deles, muitas bem parecidas. Todos eles estiveram na rua em algum momento. São em sua maioria adolescentes de 13 a 17 anos que foram espancados, maltratados em casa e que fugiram”, relata a atriz.

Para Clarice, trabalhar com esses jovens é mais do que oferecer uma oficina de teatro, é dar uma oportunidade para sonhar com um mundo melhor. “É uma realidade potente, porém, invisível”, lamenta. O elenco atual tem cerca de 15 dos 30 participantes iniciais, e todos já voltaram para casa. “Mas ainda há muito o que fazer. Nosso papel é levantar esse debate”.

“Eu quero o teatro para a minha vida”

Lidar com o mundo sendo renegado pela sociedade não é uma tarefa fácil. Clarice Cardell conta que não tem como ignorar os problemas vividos por essas pessoas. “Eu sou mãe de adolescente e vejo o quanto eles (os atores) são mais maduros. Porque a vida impôs isso a eles. Ao mesmo tempo, vejo como eles lidam com o resultado final nos ensaios. Poder se visualizar interpretando também dá um pouco da esperança que eles precisam”, relata a idealizadora.

Com uma história recorrente de dificuldade de vida, C.F.S, de 13 anos, é uma das novas atrizes do tablado. “Eu quero o teatro para a minha vida. Continuar na carreira e poder fazer peças em outros abrigos para ajudar outras pessoas. É muito emocionante quando subo ao palco”, conta a jovem.

O colega J.S.R, de 14 anos, se empolga ao descrever a sensação de atuar. “É um prazer, muito incrível. Primeiro eu não gostava e agora, que me envolvi, se tornou muito interessante. Além da oportunidade de apresentar, descobrir como fazer teatro é uma das maiores alegrias. Antes eu tinha o pensamento de me refugiar. Agora eu quero fazer parte disso”, ressalta o jovem.

De ator para ator

O ator Paulo Betti, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil com a peça Autobiografia Autorizada foi convidado a assistir à pré-estreia de Meninos da Guerra. O artista ficou maravilhado com a representação dos adolescentes. “Riquíssimo, mágico, forte, mito bem dirigido. Trabalho muito bonito. Todas as cenas estão muito boas, as máscaras são lindas, a iluminação é ótima. Há até uma cena iluminada com o celular, muito interessante. E os atores são muito bons. Fiquei emocionado”, enalteceu após o espetáculo.

Serviço:

Meninos da Guerra –  De sexta a domingo, às 20h, no Teatro Sesc Newton Tossi (Ceilândia). Nos dias 4, 5 e 6 de agosto, às 20h30, no  Teatro Garagem do Sesc (913 Sul). Entrada franca. Não recomendado para menores de 14 anos.

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