A fotografia em preto e branco adentra no universo marcado por guerras entre gangues rivais em pequenos vilarejos pobres do Japão. Fundador do gênero chambara (samurai), o cineasta Akira Kurosawa consegue fazer o espectador voltar no tempo, no período Sengoku, uma das fases mais conturbadas da história do país, marcada por constantes conflitos, entre o século 15 e 17. Duas obras clássicas desse diretor, Yojimbo (1961) e Sanjuro (1962), são relançadas em uma caixa e levam o espectador para esse mundo marcado pelas guerras entre samurais.
O olhar de Kurosawa, no entanto, não é simples. Muito menos previsível. Ele vai além. Os longas-metragens que parecem ser semeados apenas por conflitos, adentram na cultura japonesa com uma sutileza única. Em seus filmes estão em foco os homens de espadas, soldados com extrema disciplina e lealdade: os samurais.
Época
Os trejeitos das mulheres, as danças japonesas, as casas de madeira com seus tatames e suas frestas usadas para ver o perigoso mundo de dentro para fora. Ainda, homens que mantêm uma postura imponente, mas ao mesmo tempo com um quê de ingenuidade capaz de dar um ar engraçado para aqueles “poderosos” chefões samurais. Todos esses recortes são retratados nos filmes que integram a caixa.
Em Yojimbo, um forte e sábio ronin – samurai que não segue um chefe – chega a uma vila devastada do Japão. A cidade é marcada pela guerra de duas tribos, que veem na chegada do novo samurai uma maneira de se fortalecer.
Assediado, o ronin Kuwabatake Sanjuro, interpretado pelo premiado ator Toshiro Mifune, vale-se da sua inteligência e habilidade com a espada para manipular ambas as gangues e para tentar acabar com a corrupção naquela cidade.
Um belo filme que consegue debater a inveja, os jogos de poderes corrupção, a ira, a luxúria, e traição.
Doses de humor e cinismo
Já em Sanjuro, que também conta com a excelente interpretação do ator Toshiro Mifune, o samurai Sanjuro volta para ajudar um grupo de jovens idealizadores que pretende acabar com a corrupção na cidade que habitam.
O filme é delineado por um cinismo particular, planos que estão aquém da mentalidade e da inocência dos aspirantes samurais. Sanjuro consegue montar uma estratégia mirabolante, não apenas para por fim à guerra local, mas também para deixar uma lição de vida para aqueles jovens perdidos na sombra do poder e da podridão social.
As obras tornam-se ainda mais ricas ao retratarem os samurais de forma particular, engraçada, capaz até de tirar boas gargalhadas. Os soldados que dominam as espadas revelam um lado bobo, ingênuo e manipulável. São clássicos que, de fato, instigam, enlaçam, provocam e surpreendem.