Menu
Viva

Diretor de Branco Sai, Preto Fica fala sobre a cidade e seus próximos projetos cinematográficos

Arquivo Geral

19/04/2015 6h00

Vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 2014, o filme Branco Sai, Preto Fica fala sobre preconceito racial e abuso de poder da polícia, por meio do contexto de Ceilândia, com novo olhar. Dirigido pelo cineasta Adirley Queirós, morador de Ceilândia, o título do longa-metragem faz referência ao ordenamento da polícia, ao invadir um baile funk dos anos 1980. Desencadeia-se uma reflexão sobre a poderosa Brasília e os moradores da região administrativa. 

Como foi a sua trajetória?

Eu jogava futebol. Eu vivi do futebol desde os 14 anos em times pequenos. Joguei no Ceilândia. Na época, parei de estudar. O meu interesse pelo cinema veio na universidade. Eu não era cinéfilo e nem tinha pessoas comigo que faziam cinema. Um dia fui à Universidade de Brasília (UnB) e me inscrevi no curso de comunicação. Eu queria voltar a estudar, em 1998. Em comunicação, tinha corte de jornalismo, publicidade e o mais baixo era o de cinema. Eu entrei no cinema sem ter noção nenhuma. Eu estava com 28 anos. Foi por acaso a minha entrada no cinema. Eu entrei mais porque estava afim de estudar. Para mim foi muito estranho, porque logo no começo do curso eu tinha muita dificuldade. Eu não entendia o que estava acontecendo. Não gostava. A primeira vez que peguei em uma câmera foi com 32 anos. A Universidade de Brasília, na época, não tinha equipamentos. Eram sucateados. A primeira vez que eu fiz um filme na minha vida foi com 35 anos, chamado Réplica da Ceilândia. A primeira vez que eu fui ao Cine Brasília foi no Festival de Cinema de Brasília, que esse filme ganhou o festival, com o melhor público. A minha história no cinema entrou pela lateral.

Como é a sua relação com Ceilândia?

Eu tenho duas relações com Ceilândia, histórica e de pesquisa e de experiência. A minha relação de experiência com Ceilândia começa em 1977, quando cheguei. Estou aqui há 38 anos. Eu vim de uma cidade pequena, chamada Morro Agudo, em Goiás. Morei cerca de três anos no Incra 8, a caminho de Brazlândia, em uma área rural na época. E, depois, vim para a Ceilândia, quando construíram a Guariroba. Eu estava na quarta série e tinha uns nove anos.

 O que move a região?

O rap é a coisa mais importante de Ceilândia. A cultura hip hop é a coisa mais importante da região.  Muito mais do que o forró, cinema e música original. O rap é o primeiro movimento cultural que encara a cidade e fala o que ela é. O cinema invadiu a cidade. Quando as pessoas vêm de fora, querem saber que cidade é essa. O cinema também fabulou a cidade. Quem vem de fora, vê a cidade com certo fascínio. Não é com piedade. Não tem que ver mesmo Ceilândia com piedade, é uma cidade forte. É um lugar privilegiado hoje em dia. A minha forma de me relacionar com isso é produzir. 

 Quais são os próximos projetos?

Temos dois, o Era Uma Vez Brasília, que está sendo filmado agora e deve sair no final do ano. É um filme louco e alucinado, que tem disco voador, Brasília vai ser destruída e vai ter uma guerra de gigantes. Vai propor uma outra urbanização para Brasília. O filme destrói Brasília e propõe um projeto novo para a cidade, como se a Ceilândia assumisse Brasília. A Ceilândia seria uma espécie de capital intelectual de Brasília. Todo o projeto de Niemeyer vai ao chão. O outro filme chama-se Mato Seco Em Chamas só sobre mulheres. Estou fazendo com a Joana Pimenta, professora americana de Harvard. Também é alucinado e lida como o corpo feminino pode ser representado no cinema. Ainda está em processo de captação de recursos. 

 Qual é a sua relação com a questão racial?

Eu sou homem branco que ocupo esse espaço. Não posso e nem quero negar isso. Em todos os filmes, os meus amigos do cinema são homens e mulheres negros. Em todos os filmes que faço, os atores principais são negros. São as pessoas que estou perto. O Brasil é um dos países mais racistas do mundo e o racismo é o lugar mais perverso. Quando você impõe uma questão racial para uma pessoa, impõe o limite de tudo. É um lugar aonde só pode haver uma guerra e uma reação. 

E sobre a repercussão do filme Branco Sai, Preto Fica?

É o filme brasileiro que mais rodou em festivais internacionais e mais visto fora do Brasil neste ano. É uma coisa incrível. Ganhei prêmios de crítica e melhor filme. Passei em Rotterdam em uma mostra. Pegaram sete filmes do mundo para falar de uma vanguarda de linguagem. É difícil fazer um filme parecido com esse em termos de repercussão. Para mim, é uma caminhada. Estou em um processo e muito feliz do diálogo gerado pelo filme. O cinema brasileiro é lugar de operário. O cinema que a gente faz é com cinco pessoas e passar o dia no carro. A gente come na rua, pão de queijo na padaria, bebe cachaça, joga sinuca, vai ao bar e fica bêbado. Somos pessoas comuns. Encaro trabalhar no cinema como atividade comum nesse sentido.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado