
Seis diferentes histórias com uma coisa em comum: o descontrole. Abordando o limite que separa a civilidade da barbárie, a mais nova sensação cinematográfica argentina, Relatos Selvagens, estreia hoje no Brasil após levar mais de três milhões de espectadores aos cinemas daquele país. Parece pouco se compararmos com o público astronômico de comédias tupiniquins no Brasil. Mas, para os hermanos, é um feito e tanto. Na disputa pela Palma de Ouro, o filme dirigido por Damián Szifrón (Tiempo de Valientes) saiu de mãos vazias. Mas bastou o bafafá em Cannes para que o longa, produzido pelo espanhol Pedro Almodóvar, começasse a trilhar uma carreira internacional muito bem-sucedida.
Formada por seis contos que não possuem ligação uns com os outros, a comédia carregada de humor negro à la Tarantino e situações nonsenses bem almodovarianas retrata situações comuns que todos vivem no dia a dia e as traduz em pura loucura. Impossível não embarcar no tom sarcástico e, por que não?, por vezes doentio, da película. Como é o caso da história vivida por uma inspirada Érica Rivas (Tetro). Uma noiva que perde a cabeça após descobrir que o homem com quem acabara de se casar teve um caso com uma das convidadas.
Mas o humor pode não ser para todos, já que muitos momentos são carregados de suspense. É o caso do tenso segmento sobre um desentendimento entre dois motoristas numa estrada deserta. O que parecia ser uma bobeira vira uma implacável luta entre dois homens adultos. Briga que envolve até mordidas – numa clara referência à selvageria proposta.
Outro ponto alto nas histórias é o fator social. Na história protagonizada por Ricardo Darín (Tese Sobre um Homicídio), uma das melhores, o público acompanha um trabalhador que vê sua vida ser destruída por causa da burocracia e injustiças sociais. A corrupção também é tratada no curta sobre um homem rico disposto a tomar atitudes antiéticas para livrar a barra do filho, que atropelou uma grávida e acabou fugindo.