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Cinema

“Todo o Sentimento” traz distopia brasileira à Mostra Competitiva do Festival de Brasília

Diretores Glenda Nicácio e Ary Rosa, e o ator Lucas Neto, falam ao Jornal de Brasília sobre o longa exibido nesta terça feira (15) na 59ª edição do festival

Tamires Rodrigues

16/09/2026 6h15

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Foto: @Itallo_smachadoo/FBCB

Em um Brasil distópico, o cineasta Henrique vive isolado. A chegada do jovem Gustavo o força a encarar o passado. Entre o desejo e a desconfiança, os dois buscam o impossível: um lugar seguro para o afeto em meio ao colapso do país. É essa a premissa de Todo o Sentimento, longa dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa que concorreu nesta terça-feira (15) na Mostra Competitiva Nacional da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Ao Jornal de Brasília, Glenda Nicácio falou sobre o processo de pensar uma ficção científica a partir da realidade brasileira. “Todo o Sentimento vem trazer um Brasil distópico que, cada vez mais, se conecta com tudo o que a gente vive no Brasil nos dias de hoje. É um tempo dos absurdos, tanto politicamente quanto no cerceamento da nossa imaginação, e eu acho que o filme se torna muito atual nesse sentido”.

A diretora também refletiu sobre a relação entre passado e futuro construída no filme. “Pensar um Brasil onde o futuro tem uma cara de passado eu acho muito triste, mas também acho que tem sido uma coisa que vem se repetindo na nossa história, cada vez mais. Antes a gente achava que no futuro os carrinhos estariam voando, e talvez a gente esteja usando as mesmas roupas, ou roupas até menos coloridas do que imaginávamos usar no futuro”, completou.

Glenda ainda destacou o significado de apresentar o filme justamente no Festival de Brasília. “Estar aqui com esse filme no Festival de Brasília é uma grande honra. O Festival de Brasília é um festival que nos formou”, finalizou.

Ary Rosa, codiretor do longa, explicou como o filme, rodado no interior da Bahia, dialoga com um cenário nacional. “Todo Sentimento é um filme que a gente grava no interior da Bahia, mas pensando nesse reflexo de um país em que as coisas acontecem aqui em Brasília e reverberam num país inteiro. É um filme distópico, que fala de futuro, mas com temas que correspondem muito às dores do presente”, disse Ary Rosa ao Jornal de Brasília.

Afeto como forma de resistência

Apesar do cenário sombrio, o diretor destacou que o afeto é um dos pilares centrais da narrativa. “É um filme que fala de afeto, que fala de amor, que fala de encontro. Acho que é um marco muito importante da obra minha e da Glenda, esses encontros que transformam: o professor com o aluno, o cineasta com o espectador, essas trocas lindas e importantes para a construção de um futuro, pelo menos, que seja mais afetuoso”, completou Ary.

O ator Lucas Neto, que interpreta Henrique, falou sobre a proximidade entre o futuro distópico do filme e o presente. “Eu interpreto o Henrique, e o filme fala de um futuro que não é tão distante assim. A gente está falando de um futuro onde as mulheres não têm direitos, e infelizmente a gente tem discutido isso hoje, sobre o direito de voto feminino”, contou Lucas Neto em entrevista ao Jornal de Brasília.

O ator também comentou os temas que atravessam a relação entre os dois personagens centrais. “Esse filme estava tentando criar um futuro completamente fora da realidade, e a gente está mais próximo disso do que nunca, onde as pessoas LGBTs também não têm direitos. Acho que a tensão vem muito desse lugar”, afirmou.

Por fim, Lucas relatou o impacto pessoal de se aproximar do roteiro antes das gravações. “Lendo o roteiro, antes de gravar, eu me senti muito angustiado ao entender como, sem alguns direitos muito básicos que a gente conquistou, a gente muda completamente. A gente sofre muito, é muito prejudicial para a gente”, concluiu.

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