A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro recebeu nesta quarta-feira (16), na Mostra Competitiva Nacional, o longa Privadas de Suas Vidas, dos diretores Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner. O filme parte de uma privada como objeto central de uma narrativa de terror, misturando gore, comédia e discussões sobre gênero, família e aceitação.
A trama acompanha Malu, que perdeu um dos filhos gêmeos em um acidente trágico e vive em conflito com o filho sobrevivente, o adolescente não binário Gênesis, que exige ser reconhecido por sua identidade. Pressionada financeiramente, Malu aceita organizar o chá revelação da vizinha Suelen, o que reabre traumas antigos e aprofunda as tensões entre mãe e filho. A situação piora quando uma maldição transforma os banheiros do prédio em instrumentos de violência, forçando os dois a se unirem para impedir que a festa termine em tragédia.

Co-diretor da produção Gustavo Vinagre contou como o humor se tornou parte natural da sua forma de escrever roteiros. “O humor para mim é uma coisa que acontece muito naturalmente quando eu estou escrevendo os roteiros. Os meus filmes, em geral, flertam com o humor e com outros gêneros, então é algo que acontece naturalmente. Eu gosto de explorar a impureza, não gosto de buscar um gênero puro, gosto de como as coisas se retroalimentam. Acho que o horror dá muito espaço pra risada, pra risada nervosa, além da comicidade em si”, disse Gustavo Vinagre ao Jornal de Brasília.
Gurcius Gewdner, co-diretor do filme, falou sobre o peso simbólico de estrear a produção no Festival de Brasília. “Eu acho que é a melhor estreia possível pro nosso filme. A gente faz filmes há muitos anos, então sinto que é um fruto muito merecido que a gente está colhendo, estrear o nosso longa mais complexo, com mais valor de produção, num festival com o histórico que o Festival de Brasília tem”, afirmou Gurcius Gewdner.
O diretor também relacionou o filme a uma referência histórica do próprio festival. “No meu imaginário envolvendo o Festival de Brasília está o filme do Jairo Ferreira, Horror Palace Hotel, que reúne essas lendas do cinema underground e marginal brasileiro dos anos 70, discutindo se o horror está ou não está no horror. Agora eu estou aqui estreando com um filme que talvez traga essas questões de novo”, completou ao JBr.
Sobre a construção do roteiro, Gurcius explicou o ponto de partida da narrativa. “Para construir o roteiro desse filme, a gente parte da premissa básica do cinema de gênero, dos clichês dos filmes de objeto assassino, pensando na privada como um objeto um tanto inédito nesse tipo de narrativa. A partir daí, a gente vai construindo camadas em que discutimos gênero, relações de família e aceitação”, disse.
O diretor ainda destacou a relevância desses temas no contexto atual. “Num período sempre conturbado politicamente no Brasil, discutir temas de preconceito e de aceitação é muito importante. A gente tentou fazer um bom equilíbrio entre entretenimento, gore e terror, com uma conversa muito séria por trás”, finalizou.
As personagens que roubam a cena
A atriz Martha Nowill, que interpreta Malu protagonista da trama, falou sobre a escolha de construir a personagem a partir de um registro emocional verdadeiro, mesmo diante do tom absurdo do filme. “A Malu é uma personagem, a meu ver, muito trágica dentro de um contexto muito absurdo e cômico também. Optei por fazer uma construção muito focada na verdade e na profundidade, sem pensar tanto no gênero do filme, porque achei que, por ser tão absurdo, se eu não fizesse com total verdade, não ia conseguir levar a personagem”, disse Martha Nowill ao Jornal de Brasília.
A atriz também contou sobre a preparação para o papel. “Os diretores me deram uma lista de 75 filmes para eu ver. Eu morro de medo de filme de terror, então foi um desafio pra mim mesma, mas também um mergulho no universo do terror e no universo dessa personagem incrível. Acho que é uma das personagens mais bonitas que eu já fiz”, completou.
Já Olivia Torres, que interpreta Kátika, descreveu o filme como um encontro perfeito entre gêneros que gosta de explorar. “O nosso filme é uma combinação perfeita pra mim, de cinema de gênero com comédia e um universo totalmente fabulesco. A Kátika é a personagem mais engraçada que eu já fiz em toda a minha carreira. Ela é hilária, e toda vez que eu reassisto o filme eu mato um pouco da saudade dela”, disse Olivia Torres ao Jornal de Brasília.
A atriz também falou sobre as referências que usou para construir a personagem. “Pra Kátika eu tentei beber muito de referências de cinema de gênero, tanto do cinema japonês, porque ela tem um quê de anime, quanto do cinema do Cronenberg, dessas personagens extremamente doces e pueris, mas também sexys e perigosas”, completou.
Por fim, Olivia destacou o significado de participar do festival pela primeira vez. “Estou muito contente de estar aqui no Festival de Brasília, é a minha primeira vez aqui, e que presente que é vir com Privadas de Suas Vidas“, finalizou.