Uma cicloativista desaparece em Brasília, e é esse sumiço que abre as portas de MAPAS, primeiro longa do diretor brasiliense Rafael Lobo. Mas o filme logo escapa do gênero policial: vira escavação, um mergulho pelas camadas de uma cidade que insiste em se apresentar como projeto perfeito, ainda que por baixo do asfalto guarde histórias inteiras soterradas.
MAPAS integra a Mostra Brasília do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com sessão nesta quarta-feira (16), às 18h, no Cine Brasília, e exibições simultâneas às 19h45 no Complexo Cultural de Planaltina e na UCB Taguatinga. O filme ainda tem uma reprise gratuita na quinta-feira (17), às 15h, na sala 2 do Cine Cultura Liberty Mall.

Antes de chegar à capital, o longa já havia rodado outros festivais: estreou nacionalmente no Cine PE, em junho, de onde saiu com cinco prêmios, e passou também pelo 30º FAM, o Festival Internacional de Cinema Florianópolis Audiovisual Mercosul. A ficha técnica é quase um retrato do audiovisual do Distrito Federal, montada com gente que constrói carreira na cidade.
A escolha pelo horror não nasceu com o roteiro. Vem de longe, de uma relação de infância com o gênero que, mais tarde, virou também objeto de pesquisa: no mestrado, Rafael Lobo se debruçou sobre o cinema de David Cronenberg, e foi ali que passou a enxergar o horror menos como fórmula de susto e mais como instrumento de investigação. “O horror me pareceu uma maneira muito natural de fazer essas histórias retornarem”, disse ao Jornal de Brasília.

Para o diretor, por trás da imagem de modernidade e planejamento que Brasília projeta existem histórias de violência, apagamentos e gente que ficou à margem da narrativa oficial sobre sua construção. Por isso os fantasmas de MAPAS raramente aparecem para assustar: funcionam como sintoma daquilo que não foi resolvido, tanto na vida de Júlia (Beta Rangel) e Sérgio (Caique Copque), os personagens que saem atrás do paradeiro de Rebeca, quanto na própria cidade. “Acho que o horror tem essa capacidade muito forte de tornar visível aquilo que tentamos manter escondido”, resume.
Os lugares que a cidade tentou esquecer
A busca conduz os dois a três endereços fantasmas da capital: o Lago Paranoá, as Ruínas da UnB e o território onde ficava a Vila Amaury, comunidade de operários da construção de Brasília engolida pelas águas quando o lago foi formado. “A imagem de uma cidade que guarda literalmente uma outra cidade submersa já tem algo de fantasmagórico”, conta Lobo, que pesquisou os lugares junto com o próprio roteiro.

Já as Ruínas da UnB carregam algo mais íntimo, por conta da própria passagem do diretor pela universidade: o interesse ali está no contraste entre um espaço parado no tempo e uma cidade que se vende como puro futuro. Nenhum dos dois lugares vira explicação fácil de história; a ideia, segundo ele, é sugerir que existem outras Brasílias sob a que conhecemos. “Essas histórias continuam presentes mesmo quando já não conseguimos enxergá-las”, diz.
Como desdobramento dessa investigação, o filme incorpora imagens de arquivo do cineasta Vladimir Carvalho, descobertas aos poucos durante uma pós-produção longa, na mesma mesa de montagem em que Lobo trabalhou ao lado de Tainá Menezes. “Era importante que elas estivessem organicamente ligadas à investigação de Júlia e Sérgio”, explica, “então fomos procurando momentos em que o arquivo pudesse fazer a narrativa avançar, mas também interrompê-la um pouco, criando outras associações entre passado e presente”.

O gesto também é homenagem a um nome fundamental para a memória audiovisual de Brasília. “O equilíbrio veio quando deixamos de pensar o arquivo como uma explicação do passado e passamos a tratá-lo como uma presença dentro do filme, quase como mais um dos seus fantasmas”, finaliza o diretor.
Serviço
MAPAS, de Rafael Lobo — Mostra Brasília, 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Quarta-feira (16/9), 18h — Cine Brasília (106 Sul) Quarta-feira (16/9), 19h45 — Complexo Cultural de Planaltina Quarta-feira (16/9), 19h45 — UCB Taguatinga (Auditório, Bloco G) Quinta-feira (17/9), 15h — reprise no Cine Cultura Liberty Mall (Sala 2)
Entrada gratuita