Na sétima noite do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o público acompanhou a exibição de Se eu fosse vivo, vivia!, longa dirigido por André Novais, conhecido por filmes como Temporada e Ela volta na quinta. Integrante da mostra competitiva, a produção foi apresentada com a presença do diretor, do protagonista Norberto Novais, pai de André, e dos atores Jean Paulo Campos e Tainá Conceição, que interpretam as versões jovens do casal central. A escritora Conceição Evaristo também integra o elenco, em sua estreia como atriz, no papel de Jacira.
Ambientado inicialmente na Contagem dos anos 1970, o filme acompanha Gilberto e Jacira, um jovem casal que tem a trajetória transformada após um encontro inesperado. Cinquenta anos depois, os dois permanecem juntos e levam uma vida compartilhada, atravessada pelas questões próprias da velhice. A internação repentina de Jacira, no entanto, faz com que Gilberto passe a experimentar acontecimentos que rompem a percepção habitual de tempo e espaço e o conduzem por uma jornada marcada por memória, ausência e desconhecido.
A dimensão pessoal da história está diretamente ligada à experiência do diretor. André Novais parte da própria relação com a perda para construir a narrativa e refletir sobre o luto. “O elemento autobiográfico do filme é a perda da minha mãe”, afirmou.
A presença de Conceição Evaristo no elenco também marcou a realização. Para o diretor, a participação da escritora acrescentou uma dimensão especial ao processo de filmagem. “A Conceição é uma pessoa generosa, muito atenta, e muito curiosa também. Veio entender o processo do set de filmagem, e é uma pessoa que apoiou muito a equipe. E a equipe apoiou ela. Foi muito bonito o seu trabalho no set e teve esse carinho, essa sabedoria, foi muito especial”, contou André.
Na trama, Jean Paulo Campos e Tainá Conceição dão vida à versão jovem de Gilberto e Jacira. A construção da relação entre os dois personagens começou rápido durante a preparação, segundo Jean Paulo. “Logo de cara eu e a Tainá tivemos uma conexão muito boa e digna desse casal que vive essa vida toda junto. Então desde o início das gravações a gente já ficou bem confiante para interpretar esse casal tão bonito que está no filme.”
Para o ator, a experiência também provocou uma reflexão pessoal sobre a maneira como o cinema pode abordar a perda. “Fazer esse filme impactou de uma forma muito bonita a minha vida, porque eu nunca tinha dado uma atenção tão específica assim como o André consegue mostrar no filme. É uma forma de luto totalmente diferente. Os livros e os filmes trazem o luto de uma forma que não é tão espiritual assim quanto o André consegue trazer, tão singela e tão bonita”, avaliou.
A parceria com André Novais também foi destacada por Tainá Conceição, que descreveu o processo de construção da personagem a partir da liberdade oferecida pelo diretor. “O André é uma pessoa muito sensível, muito gentil, então foi como conversar, chegou uma hora que não parecia que era um trabalho. Foi muito gostoso fazer o filme. Ele é uma pessoa que dialoga e te deixa confortável para interpretar da forma que você sentiu e ele vai ajustando de forma muito sutil para o que ele quer como diretor.”
A atriz também vê no encerramento da história uma síntese da maneira como a produção aborda a perda. “Acredito que o final do filme é o resumo do que é o luto. Que apesar de tudo, a leveza não precisa deixar de vir junto com o processo do luto.”
Na sessão em Brasília, Norberto Novais também falou sobre a relação pessoal com a história. O ator, que participa pela terceira vez do Festival de Brasília, relembrou a inspiração do filme na trajetória vivida com a esposa, Maria José Novais, conhecida como Zezé, que morreu em 2018. A experiência familiar é incorporada à obra pelo diretor em uma narrativa que aproxima lembrança e ficção.