A última noite da Mostra Competitiva Nacional do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro teve como protagonista a única produção do Distrito Federal. Diretamente de Ceilândia, Sabes de Mim, Agora Esqueça, da diretora e roteirista Denise Vieira, encerrou a competição com uma história que parte de personagens e memórias ligadas à cidade para construir uma narrativa de fantasia e ficção científica.
Ambientado em uma Ceilândia distópica, o filme acompanha Rubia, uma mulher em fuga que encontra abrigo no cabaré Toca, espaço que sobrevive à repressão dos Lanternas. A produção combina elementos de fantasia e ficção científica a partir de uma pesquisa realizada por Denise Vieira sobre profissionais do sexo durante o período de construção de Brasília, recuperando uma história marcada pela pouca preservação de registros e pela invisibilidade dessas mulheres.
A pesquisa da diretora encontrou nas imagens de arquivo um dos pontos de partida para a criação do longa. “Na minha pesquisa sobre o tema (mulheres na época da construção da capital), eu me deparei com um filme chamado Brasília, a capital do século, que talvez seja a única imagem dessas mulheres. A partir dessas imagens eu comecei a trabalhar com as atrizes”, contou Denise.

O cabaré Toca, onde parte importante da narrativa se desenvolve, foi concebido como um espaço de autonomia diante do contexto de repressão vivido pelas personagens. “O cabaré, o Toca, foi criado como um espaço de liberdade para elas. Onde elas conseguem manter o funcionamento e a autonomia”, explicou a diretora ao Jornal de Brasília.
A escolha do elenco também estabelece uma ponte entre as experiências retratadas no filme e questões ainda presentes no cotidiano de mulheres trans e profissionais do sexo. Para Pietra Sousa, que integra o elenco, a construção da personagem dialoga diretamente com experiências do presente. “A Denise fez uma escolha muito sábia de botar algumas pessoas trans no elenco e a gente, querendo ou não, é empurrada para a atuação sexual. Parte da vivência de várias.”
A atriz também relaciona a preparação para o filme à própria experiência e à pesquisa sobre as trabalhadoras do sexo do passado. “Eu já estive em um momento que eu tive que lidar diretamente com a prostituição, assim como outras pessoas trans e, infelizmente ou felizmente, ainda é um cenário muito vívido. Então trazer um pouco dessa vivência de trabalhadora sexual foi uma pesquisa sobre o passado, mas também sobre uma projeção de futuro. E lidar de uma forma diferente em relação a isso.”
Para Pietra, a dificuldade de encontrar registros sobre essas mulheres também revela um processo histórico de apagamento. “A gente não encontra muita informação sobre essas trabalhadoras no passado, porque a gente sofre um processo de invisibilização. O que a gente acaba encontrando são escombros dessas trabalhadoras, cabarés fechados…”, afirmou.
Aysha Layon também destacou a relação entre sua presença no filme e a representação dessas mulheres. Para a atriz, a personagem permite recuperar uma memória coletiva a partir da própria construção de sua identidade. “Você vê que a sua figura enquanto mulher, como potência dentro do filme, se coloca em representação a essas mulheres. Eu acredito que, dentro da minha corporeidade, da minha construção de mulher, é um resgate dessas mulheres, trabalhadoras do sexo.”
A atriz considera que essa representação é atravessada por uma relação de respeito com as mulheres que a pesquisa de Denise busca trazer de volta à narrativa. “É um lugar que a gente traz com muito respeito, porque tem essa relação ancestral dessas mulheres e o que elas passaram, então eu trago essa bagagem de potência dentro do filme.”

A relação de Denise Vieira com o cinema brasiliense é anterior ao longa que encerrou a competição. Arquiteta formada pela Universidade de Brasília (UnB), a diretora integra desde 2010 o Coletivo de Cinema em Ceilândia e construiu parte importante de sua trajetória no audiovisual na direção de arte. Em 2014, recebeu o prêmio de Melhor Direção de Arte da Mostra Competitiva Nacional por Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós. Oito anos depois, voltou a vencer na mesma categoria por Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta. Seu curta Meio fio, também realizado em 2014, participou da Mostra Brasília daquele ano e recebeu o prêmio de Melhor Fotografia.
Em Sabes de Mim, Agora Esqueça, a própria escolha do espaço de filmagem reforça a relação entre ficção e memória. O longa foi rodado em um edifício no centro de Ceilândia que havia funcionado anteriormente como cabaré. Embora a cidade seja fundamental para a origem do projeto, Denise optou por concentrar quase toda a ação nos interiores do imóvel. Ceilândia aparece diretamente em apenas um plano, enquanto aspectos de sua história são incorporados às conversas das personagens e aos materiais de arquivo.
Ao subir no palco com toda a produção do longa, Denise encerrou seu discurso com palavras fortes. “Apresentamos agora, nessa sala, a nossa criação. Somos feitas de tudo que ainda não sabemos. De muitas mortes e de muitas vidas. Nossas armas de guerra mais poderosas, a intuição e a putar**.”