Vencedor de três prêmios César, incluindo o de Melhor Filme, O Apego (L’Attachement), da diretora e roteirista francesa Carine Tardieu, chega aos cinemas brasileiros em 27 de agosto. O drama, distribuído no país por Bonfilm e O2 Play, integrou a programação do Festival de Cinema Francês do Brasil em 2025 e foi um dos títulos mais procurados pelo público durante o evento.
Adaptado do romance L’Intimité, de Alice Ferney, o filme acompanha Sandra, uma livreira independente interpretada por Valeria Bruni-Tedeschi, conhecida por trabalhos como Os Jovens Amantes e Os Laços que nos Unem. Solteira e sem filhos, a personagem mantém uma vida estruturada em torno de sua independência e de sua livraria especializada em publicações sobre feminismo. Essa rotina, porém, muda quando ela passa a compartilhar, ainda que inicialmente sem querer, a intimidade do vizinho Alex e de seus dois filhos.
Alex é vivido por Pio Marmaï, enquanto o jovem Elliott é interpretado por César Botti. No apartamento em frente ao de Sandra também está Emilia, personagem de Vimala Pons, que recebeu o César de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação no longa. Ao todo, O Apego conquistou três troféus na 51ª edição do prêmio: Melhor Filme, Melhor Adaptação e Melhor Atriz Coadjuvante.
A aproximação entre Sandra e a família acontece de maneira gradual. O que inicialmente parece apenas a convivência casual entre vizinhos se transforma em uma relação de afeto e pertencimento. Aos poucos, a personagem se envolve com a rotina de Alex e Elliott e passa a ocupar um espaço inesperado na vida dos dois.
“Me interessei pela ideia de retratar uma mulher moderna, que não era submetida aos ditames do patriarcado, que reivindica sua independência e assume uma vida de solteira sem precisar se justificar — uma mulher relativamente livre, enfim. Mas que, subitamente, é abalada pelo afeto de um menino e de seu padrasto enlutados”, explica Carine Tardieu no material de divulgação do filme.
A diretora também destaca o contraste que move a trajetória da protagonista: “Eu gostei da ideia de uma mulher que, a princípio, não tinha qualquer interesse por crianças acabar se apegando”.
Afeto sem respostas prontas
Ao tratar da construção dos vínculos, Tardieu evita soluções fáceis e acompanha de maneira paciente as transformações de seus personagens. O corredor do prédio, que inicialmente funciona como uma fronteira entre as vidas de Sandra e da família, passa a ser gradualmente atravessado. As portas que se abrem simbolizam também a aproximação entre pessoas que, em princípio, não imaginavam fazer parte da vida umas das outras.
É nesse processo que o filme encontra sua principal força. Sandra, Alex e Emilia lidam com sentimentos que nem sempre conseguem compreender ou nomear. O luto, a culpa, a vulnerabilidade e o desejo de reconstruir a própria vida aparecem entrelaçados à descoberta de novas formas de afeto.
A relação com Elliott é especialmente importante para a transformação de Sandra. A espontaneidade e a curiosidade do menino fazem com que a protagonista reveja certezas e perceba as contradições presentes nas relações dos adultos ao seu redor. Em uma das cenas, Sandra afirma que Elliott é um menino “seguro de si”, em uma interação que ajuda a revelar o quanto os próprios adultos estão tentando encontrar segurança em meio às incertezas.
A contradição, aliás, é um dos elementos centrais da narrativa. Sandra não deixa de ser independente ao criar vínculos, assim como o afeto não apaga as dores dos personagens. O filme parte justamente da ideia de que sentimentos podem coexistir e que a construção de uma relação não exige que todas as respostas estejam prontas.
A trilha também reforça essa perspectiva. Para encerrar a história, Carine Tardieu escolhe “Você Abusou”, composição da dupla brasileira Antônio Carlos e Jocafi, retomando a ideia que atravessa toda a narrativa: o amor como elemento capaz de aproximar pessoas, transformar relações e abrir espaço para novas formas de pertencimento.
A recepção da crítica francesa destacou justamente a delicadeza do longa. A Télérama classificou a produção como “uma crônica da reconstrução afetiva com uma delicadeza extraordinária”. Já a Première ressaltou a capacidade do filme de lidar com a emoção sem recorrer ao excesso, enquanto Les Fiches du Cinéma definiu a obra como um drama contido, generoso e comovente.
Carine Tardieu
Diretora e roteirista, Carine Tardieu estudou cinema e televisão em Paris e iniciou sua trajetória na direção com curtas-metragens. Em 2002, realizou Les baisers des autres, premiado em festivais internacionais. Dois anos depois, dirigiu L’aîné de mes soucis, que recebeu, entre outros reconhecimentos, o Prêmio do Público no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand.
A cineasta estreou em longas-metragens em 2007, com La tête de maman. Depois vieram Du vent dans mes mollets (2012) e Ôtez-moi d’un doute (2017), selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.
Em 2020, Tardieu dirigiu Les jeunes amants (Os Jovens Amantes), filme que chegou ao Brasil pelo Festival Varilux de Cinema Francês de 2022 e que marcou uma de suas passagens pelo país.
Seu quinto longa, L’Attachement, foi selecionado para a seção Orizzonti do Festival Internacional de Cinema de Veneza em 2024. Adaptado da obra de Alice Ferney e escrito por Tardieu em parceria com Agnès Feuvre e Raphaële Moussafir, o filme retoma um tema recorrente na filmografia da diretora: a família e as diferentes maneiras pelas quais os vínculos são construídos.
O Apego estreia nos cinemas brasileiros em 27 de agosto, com 1h45 de duração, classificação indicativa de 12 anos e gênero drama.