Tem algo de corajoso em aceitar interpretar alguém que ainda respira, que ainda sobe em palco, que ainda tem fãs capazes de comparar cada gesto com o original. Gabriel Santana sabia disso quando o telefone tocou com o convite para viver o rapper Hungria nas telas. Sabia e aceitou assim mesmo, carregando junto o entusiasmo de quem cresceu dentro da cultura do rap e o frio na barriga de quem entende o tamanho do que estava assumindo. “Eu me pego bem desprevenido quando me chamaram”, contou o ator ao Jornal de Brasília, “justamente porque ele está vivo, tem atividade, é um homem muito novo, mesmo com muito sucesso.”
O que poderia ser paralisante virou combustível. Santana não precisou pesquisar o universo do hip hop como quem estuda uma língua estrangeira. Ele já falava esse idioma desde os onze anos, quando o rap começou a ocupar os fones de ouvido de um menino que ainda não sabia que um dia ia encarnar um dos maiores nomes do gênero no Brasil. Essa intimidade com a cultura foi o que transformou o papel em algo além de uma oportunidade profissional. Para ele, o projeto carregava também uma dívida a ser paga.
"A gente raramente fala sobre a cultura do hip hop, que está no dia a dia da maior parte dos brasileiros", disse, com uma convicção que vai além do set de filmagem.
Construir um personagem que os fãs já conhecem de cor, mas de quem existem poucos registros da juventude, exigiu um equilíbrio que Santana foi buscar diretamente na fonte. As conversas com Gustavo da Hungria Neves foram longas, detalhadas e revelaram um homem muito diferente da imagem que os palcos e as redes sociais projetam. “O Hungria passa essa imagem de muita força, de muita superação, mas no dia a dia com os amigos, com a família, num atender um fã, eu vejo ele muito vulnerável emocionalmente”, revelou o ator, ainda visivelmente tocado pela descoberta. Um homem que fala das próprias cicatrizes sem transformá-las em troféu, sem o discurso ensaiado de quem superou e quer inspirar. Apenas um ser humano relatando o que viveu com a sensibilidade de quem ainda sente.
Esse lado nunca chegou inteiro às telas, e Santana é o primeiro a admitir. O filme escolheu um recorte de sete, oito anos da vida de Gustavo, condensados com licença poética numa narrativa coesa. O que ficou de fora não é ausência, é respeito. E o que entrou foi construído a quatro mãos, com o próprio Hungria presente em cada decisão criativa, do roteiro à caracterização. “A gente encontrou um bom meio do caminho entre as pessoas reconhecerem o Hungria ali, tanto nos gestos, quanto no andar, quanto no jeito de falar, mas também entender que muitas das coisas que estão ali no filme nunca foram mostradas”, explicou o ator.

Emocionalmente, o set cobrou um preço alto. Santana descreve uma sequência específica do filme como a mais exigente de toda a sua carreira, uma montanha russa que reúne o primeiro show de Gustavo sem pagamento, longe de casa, a internação da mãe e um acontecimento grave com o melhor amigo. Para gravar cenas que duraram vinte minutos, o ator passou três, quatro horas em preparação emocional num canto do set, ao lado da preparadora, enquanto a equipe técnica montava a luz e testava os enquadramentos. É o tipo de entrega que o espectador não calcula enquanto assiste, mas que sente sem saber de onde vem.
No fundo, o que Gabriel Santana encontrou em Hungria foi um espelho com moldura diferente da sua. Dois jovens brasileiros que começaram cedo, sem manual, sem rede de proteção, aprendendo na base do erro e da teimosia. “Todo personagem está passando pela minha carne. O único recurso que eu tenho para criar uma personagem é o que eu já vivi, o que eu penso, o que eu acredito”, disse o ator, que também veio de uma família sem tradição artística e teve que construir tudo tijolo por tijolo. A identificação não foi forçada. Ela já estava lá, esperando ser nomeada.

“Hungria: A Escolha de um Sonho” é o primeiro protagonista de Gabriel Santana em um longa de grande produção, e ele chega a essa marca sem o peso de quem precisou se provar. Chega com a leveza de quem encontrou no papel algo verdadeiro. Ceilândia já o espera com outdoors espalhados pela cidade. O Brasil ainda vai descobrir quem é Hungria, e é exatamente para esse Brasil que esse filme foi feito.