Considerado o evento cinematográfico mais antigo do país em atividade, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega à sua 59ª edição entre esta sexta-feira (11) até o dia 19 deste mês, no Cine Brasília, com uma seleção de 71 filmes e uma série inédita, além de novas mostras paralelas e sessões especiais. Ao lado das exibições, a programação inclui atividades formativas, ações de mercado e iniciativas em outros espaços culturais do Distrito Federal. Planaltina e Taguatinga também recebem parte da mostra, por meio da Mostra Brasília e do Festivalzinho, voltado ao público infantil.
A venda de ingressos para a Mostra Competitiva Nacional no Cine Brasília abre nesta quinta-feira (10/9), pelo aplicativo do Ingresso.com e diretamente na bilheteria do cinema. As demais atividades, incluindo a reprise da Competitiva Nacional, têm entrada gratuita, limitada à capacidade de cada sessão.
A cerimônia de abertura acontece nesta sexta-feira (11), às 19h30, no Cine Brasília, com a exibição do longa metragem “A Pele Morta” (2026), dirigido pelos irmãos brasilienses Bruno Fatumbi Torres e Denise Moraes, filhos do cineasta Geraldo Moraes, nome histórico do cinema do Distrito Federal. O filme acompanha a jornada de um caminhoneiro uruguaio e um jovem indígena guarani-kaiowá. A noite também marca a homenagem à atriz Julia Lemmertz, contemplada com o Troféu Candango de Conjunto da Obra, com exibição de “A Cor do Seu Destino” (Jorge Durán, 1986), filme estrelado pela atriz que foi recentemente restaurado para a ocasião.

Logo no primeiro fim de semana, o público acompanha um debate sobre o filme de abertura, “A Pele Morta”, além da exibição de três episódios inéditos da série pernambucana “Delegado”, dirigida por Marcelo Lordello e Leonardo Lacca. A produção tem assinatura da Cinemascópio, empresa de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, ambos presentes na programação deste ano: ele com o lançamento do livro “O Agente Secreto, Um Roteiro”, e ela com uma masterclass sobre cinema.
Segundo a diretora geral do festival, Sara Rocha, a chegada de “Delegado” à programação é resultado de um trabalho construído ao longo de várias edições.
“O lançamento do Delegado é fruto de um trabalho de consistência de curadoria e de relacionamentos e contatos que vão se densificando de edição para edição. É uma série que tem premissas propriamente cinematográficas, produzida pela Cinemascópio, empresa do Kleber Mendonça Filho e da Emilie Lesclaux”, afirma Sara Rocha, em entrevista ao Jornal de Brasília.
A diretora destaca ainda que o formato reflete um movimento maior do audiovisual contemporâneo. “Hoje existe um movimento de obras seriadas sendo produzidas no Brasil e fora dele com qualidade propriamente de cinema. Acho que é uma tendência da produção audiovisual nacional e internacional que haja esse intercâmbio de linguagem entre os formatos”, diz.
Julia Lemmertz é a grande homenageada da edição
Além das homenagens já previstas, o nome que mais se destaca nesta edição é o da atriz Julia Lemmertz, reconhecida com o Troféu Candango de Conjunto da Obra logo na cerimônia de abertura. Como parte da celebração, o público poderá rever em tela grande “A Cor do Seu Destino”, filme de 1986 dirigido por Jorge Durán que, recém restaurado, completa quatro décadas de existência. Foi por esse trabalho que Lemmertz conquistou o Candango de Melhor Atriz Coadjuvante na época do lançamento.
Homenagens e disputa competitiva

O primeiro fim de semana também reserva espaço para outros reconhecimentos. A cineasta Tata Amaral recebe o Prêmio Leila Diniz, voltado a mulheres que abriram caminho no cinema nacional, enquanto Fernanda Coelho é agraciada com a Medalha Paulo Emílio Sales Gomes, por sua contribuição à preservação da memória e ao ensino do cinema no país.
Na Mostra Competitiva Nacional, 19 produções concorrem entre si, sendo sete longas e 12 curtas metragens de diferentes estados do país. A abertura da competição acontece com a animação “Ana, en passant”, de Fernanda Salgado, seguida por títulos como “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco, “Todo o Sentimento”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, e “Se eu fosse vivo… vivia”, de André Novais Oliveira. O Distrito Federal está representado pelo longa “Sabes de mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira, e pelo curta “Gastronomia do Olho”, de Nicolau.
Os filmes selecionados recebem cachês de R$ 30 mil, no caso dos longas, e R$ 10 mil para os curtas, além de concorrerem a prêmios paralelos, como o Prêmio Canal Brasil de Curtas, no valor de R$ 15 mil.
Para o diretor artístico do festival, Eduardo Valente, montar essa seleção é um processo que exige equilíbrio entre respeito aos realizadores e a identidade do próprio evento.

“A comissão toda sabe que são sempre muito mais filmes do que lugares na programação, então o principal é manter o respeito e entender que cada festival tem um perfil, seja de público, seja de programação. Não se trata de escolher os melhores, nem de que um determinado festival vai determinar tudo sobre a carreira daquele filme”, explica Eduardo Valente, em entrevista ao Jornal de Brasília.
Segundo ele, a curadoria busca compor um conjunto coerente com a proposta do festival. “A natureza do Festival de Brasília é a de um festival muito conectado à discussão das questões sociais, políticas e culturais do país, e também à própria linguagem cinematográfica. A gente está sempre buscando filmes que consigam revelar coisas sobre a nossa sociedade através dessa linguagem”, afirma.
Sobre a Mostra Competitiva especificamente, o diretor artístico resume a expectativa da curadoria. “A expectativa principal é permitir a quem esteja acompanhando, seja espectador, júri ou crítica, ter um retrato muito amplo dessa diversidade, não só cinematográfica, mas também regional, étnico racial e de gerações de realizadores. É um festival do cinema brasileiro, então a seleção precisa trazer uma visão ampla do cinema brasileiro de hoje”, diz Eduardo.
Cinema local ganha espaço crescente
A partir da segunda semana, a Mostra Brasília entra em cena com produções realizadas no Distrito Federal, concorrendo ao 29º Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal, que soma R$ 298 mil em prêmios. Entre os títulos selecionados estão “Hacker Leonilia”, “Onde Moram os Irmãos”, “Isso Aqui é Várzea!”, “Não Há Crime no Plano Piloto” e “Ar Dor”.
Eduardo Valente observa que o crescimento do cinema local no festival tem menos a ver com mudança de critério e mais com o amadurecimento do setor. “Eu destacaria não só termos filmes de cineastas de Brasília na abertura e no encerramento, mas a quantidade de filmes brasilienses na programação como um todo. É na quantidade que se constrói tanto qualidade quanto diversidade”, avalia.
Ele lembra ainda que o filme de abertura tem origem baiana, com filmagens entre Mato Grosso do Sul e Paraguai, enquanto o de encerramento foi rodado no Rio de Janeiro, em coprodução entre empresas de Brasília e do Rio. “Isso fala das ações de mercado, de formação e de networking do próprio festival, que é onde os cineastas de Brasília ampliam seu escopo e levam o cinema local para além do Distrito Federal”, diz.
Descentralização e acessibilidade
A programação também chega a outras regiões administrativas, com sessões no Complexo Cultural de Planaltina e na Universidade Católica de Taguatinga, além de exibições ao ar livre em Samambaia. Sara Rocha destaca que esse movimento de descentralização é resultado de um trabalho de longo prazo.
“A descentralização para as regiões administrativas sempre foi uma premissa perseguida no sentido de não só levar os filmes, mas oferecer uma programação de qualidade, com uma experiência cinematográfica adequada e uma integração efetiva do público nas RAs. Há dez anos, as condições de exibição nessas regiões eram muito precárias, e isso mudou com parcerias institucionais construídas ao longo do tempo”, relata.
A diretora também ressalta os avanços em acessibilidade conquistados na atual gestão. “A sustentabilidade e a acessibilidade sempre foram premissas fundamentais dentro da gestão desse triênio, o que proporcionou a cobertura integral de todos os filmes que passam pelo Cine Brasília, com áudio descrição, legenda descritiva e intérprete de libras em todos os cerimoniais de apresentação”, afirma Sara.
Conferência e encerramento
Na segunda semana, o festival também recebe a 6ª Conferência do Audiovisual Nacional, com o tema “Audiovisual brasileiro, uma agenda para o próximo ciclo”, reunindo discussões sobre preservação, festivais e os caminhos do setor no Distrito Federal, além de rodadas de negócios. Um dos destaques é o lançamento da pesquisa “A Câmera que Vem da Terra e Aponta para o Céu”, primeiro mapeamento sobre o cinema de mulheres indígenas no Brasil.
O festival ainda dedica espaço à memória do cinema brasileiro, com a mostra “História(s) do Cinema Brasileiro” e lançamentos de livros como “Conversas no Cinema”, de José Geraldo Couto, “Rússia, Ucrânia e o Cinema em Tempos de Guerra”, de João Lanari Bo, e “Limite, o Poema em Filme”, de Ciro Inácio Marcondes.
A programação se encerra com a cerimônia de premiação, seguida da exibição especial do filme “Verão da Lata”, de Santiago Dellape.
Programação completa:
Sábado (12): debates, homenagens, estreias e sessões
- 10h: O Festival segue na área de convivência do Cine Brasília, com o debate sobre o filme de abertura, “A pele morta”.
- 11h: Início das sessões diárias da Mostra História(s) do Cinema Brasileiro com “Brasília segundo Feldman”.
- 15h: A cineasta Tata Amaral, outorgada com o prêmio Leila Diniz, para mulheres que abriram caminhos dentro do cinema nacional, será a homenageada durante o filme “Pitico – Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) – Historiador da Província”, de Júlio Bressane.
- 18h: Exibição inédita de três episódios do seriado pernambucano “Delegado“, dirigido por Marcelo Lordello e Leonardo Lacca, com produção de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux.
- 18h: Início das sessões diárias da Mostra Festival dos Festivais com o experimental “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”.
- 20h: Kleber Mendonça Filho lança o livro “O Agente Secreto – Um Roteiro”.
- 21h: Início das sessões diárias da Mostra Competitiva Nacional com a animação “Ana, en passant”.
Domingo (13): mostra infantojuvenil, reprises, lançamento de livros
- Cine Brasília, Planaltina e Taguatinga: Início do Festivalzinho (mostra infantil, até dia 17)
- 10h (Cine Cultura Liberty Mall, Sala 2): Início das reprises da Mostra Competitiva Nacional.
- 14h (Cine Brasília): Coletiva de imprensa com a equipe da série “Delegado”.
- 16h: Masterclass sobre cinema com a produtora Emilie Lesclaux de “Bacurau” e “O Agente Secreto”.
- 18h (Cine Brasília): Entrega da Medalha Paulo Emílio Sales Gomes a Fernanda Coelho por sua contribuição à preservação da memória e ao pensamento e ao ensino do cinema no Brasil. Será homenegeada durante a exibição de materiais do “Arquivo Público do DF”.
- 20h (Cine Brasília): Lançamento do livro “Conversas no Cinema”, de José Geraldo Couto.
Segunda-feira (14): conferências, encontros e debate
- Início da 6ª Conferência do Audiovisual Nacional, com o tema “Audiovisual brasileiro: uma agenda para o próximo ciclo”.
- 14h (Auditório Cine Brasília): Encontro Setorial: “Festivais e Mostras de Cinema – Conversas sobre Preservação”
- 18h (Cine Brasília): Início das sessões da Mostra Brasília com a animação “Hacker Leonilia”.
- 19h45 (Planaltina e Taguatinga): Início das sessões da Mostra Brasília no Complexo Cultural de Planaltina e na Universidade Católica de Brasília.
Terça-feira (15): Pesquisa e Livro
- 14h (Cine Brasília): Lançamento da primeira pesquisa-mapeamento sobre o cinema de mulheres indígenas no Brasil, intitulada “A câmera que vem da terra e aponta para o céu”.
- 20h (Cine Brasília): Lançamento do livro “Conversas no Cinema”, de José Geraldo Couto;
Quarta-feira (16): Ambiente de mercado, Encontro setorial e livro
- 09h às 12h: Rodadas de Negócio (Ambiente de Mercado) .
- 14h (Cine Brasília): Encontro Setorial: “Caminhos para o Audiovisual no DF” .
- 20h (Cine Brasília): Lançamento do livro “Rússia, Ucrânia e o Cinema em Tempos de Guerra”, de João Lanari Bo.
Quinta-feira (17):
- 14h às 18h: Rodadas de Negócio (Ambiente de Mercado).
- 15h (Online): Encontro Setorial: “Figurinistas em Debate – Trabalho, Criação e Audiovisual”.
- 20h (Cine Brasília): Lançamento do livro “Blues Brothers: A Fuga de Joliet Jake”, de Felipe Sobreiro.
- Encerramento: Último dia do Festivalzinho.
Sexta-feira (18):
- 15h (Online): Encontro Setorial: “BRADA – Diretoras de Arte do Brasil”.
- 20h (Cine Brasília): Lançamento do livro Limite, o Poema em Filme, de Ciro Inácio Marcondes
- Encerramento: Último dia das sessões competitivas (Nacional e Brasília) no Cine Brasília.
Sábado (19): Encerramento, premiação e sessão final
- 10h (Cine Cultura Liberty Mall): Última sessão de reprise da Mostra Nacional, entrada gratuita.
- 14h: Debates sobre Curadoria e Crítica.
- 17h às 20h (Cine Brasília): Cerimônia de Premiação, com Bárbara Colen e Simone Zucolotto. 21h (Cine Brasília): Sessão Especial de Encerramento com o filme “Verão da lata”, de Santiago Dellape.