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Aniversário de Brasília

Em 66 anos, Brasília virou personagem, cenário e alma do cinema brasileiro

Da poeira vermelha dos candangos aos festivais de resistência, a capital forjou uma tradição audiovisual que disputa narrativa com sua própria arquitetura

Tamires Rodrigues

23/04/2026 5h00

foto arquivo público

O Cine Brasília concentra grande parte da história do cinema da capital. — Foto: Arquivo público

Brasília completou 66 anos na última terça-feira (21), carregando no asfalto quente e nas curvas de concreto uma história que o cinema nunca parou de contar. Antes mesmo de existir oficialmente, a capital já era imagem. A demarcação do terreno no cerrado, registrada de cima, de um voo que desenhou no chão aquele X que virou avião, tudo filmado, tudo documentado. Poucas cidades no mundo têm esse privilégio e esse peso: nascer diante de uma câmera.

“Brasília é uma cidade que nasceu sendo filmada. As imagens da construção parecem ecografias da própria cidade”, afirma o professor de audiovisual da Universidade Católica de Brasília e cineasta Alex Vidigal, em entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília. Para ele, a relação entre a cidade e o cinema começa antes da primeira pedra. “Ela foi idealizada, fotografada, filmada e a gente tem a história dela contada audiovisualmente, formação de quadros.” Essa consciência imagética, que acompanha Brasília desde a sua gênese, moldou de forma singular o olhar dos cineastas que aqui viveram, trabalharam e criaram.

alex vidigal foto hélio montferre
Alex Vidigal . — Foto: Helio Montferre

O registro da construção não foi apenas jornalístico ou institucional. Foi poético, político e, por vezes, contraditório. Em 1959, o fotógrafo e cineasta Eugene Feldman captou os candangos em preto e branco, e no mesmo ano Frank Capra filmou seis horas da cidade sendo erguida em rolos que jamais foram encontrados. A ausência desse material, paradoxalmente, diz muito sobre a cidade: Brasília é também aquilo que escapa, que some, que não se deixa arquivar completamente. O DNA da capital, como observa Vidigal, é o DNA do Brasil. “A gente se deslocou a capital do Rio de Janeiro para Brasília e trouxe várias pessoas do país inteiro.”

Com apenas quatro anos de existência, a jovem capital já enfrentava os primeiros abalos do golpe militar de 1964. A utopia modernista de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, aquela proposta de um país que se reinventava a si mesmo no coração do cerrado, foi imediatamente confrontada pela realidade autoritária. E o cinema brasiliense não ficaria imune a isso. Seria exatamente nesse atrito entre o sonho arquitetônico e a brutalidade política que a produção audiovisual local encontraria sua voz mais potente.

O templo e a resistência

O espaço que concentrou grande parte dessa história tem nome, endereço e projeto assinado por Niemeyer: o Cine Brasília, inaugurado em 22 de abril de 1960, na Asa Sul, um dia depois da cidade. Ali, em 1965, nasceu o Festival do Cinema Brasileiro, o mais longevo e um dos mais politicamente carregados festivais de cinema do país. Para Alex Vidigal, que já exibiu três curtas-metragens no espaço, O Filho do Vizinho, De Bom Tamanho e Riscados pela Memória, o Cine Brasília tem uma dimensão que ultrapassa a arquitetura e a programação. “Para mim, o Cine Brasília é sagrado. Quando eu chego ali na bilheteria, eu já me preparo, me desligo, e entro naquela liturgia das imagens.”

tradição e resistência marcam o festival de brasília do cinema brasileiro
8ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1975. — Foto: Arquivo Público do Distrito Federal/Fundo Fundação Cultural do Distrito Federal

A comparação com uma igreja não é capricho afetivo. É leitura de quem entende o que esse tipo de espaço representa num país onde os cinemas de bairro foram, um a um, sendo engolidos pelos multiplex de shopping ou convertidos em templos neopentecostais. “É muito triste olhar o fim dos cinemas de bairro. A gente tinha o Cine Lara, o Cine Tapuã, o Cine Márcia, o Cine Carim, projetos que ficavam mais próximos das pessoas de onde elas moravam”, lembra o professor. O Cine Brasília representa uma resistência concreta a essa lógica: o cinema público como antídoto ao consumo acelerado dos shoppings e ao ruído permanente das telas de celular e computador.

Dentro daquelas paredes, hoje com 606 poltronas depois de ter comportado originalmente 1.200, desfilaram alguns dos maiores nomes do cinema brasileiro. Glauber Rocha, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Nelson Pereira dos Santos, Rogério Sganzerla, Capovilla. O Festival foi, nos anos de chumbo, um dos poucos espaços onde filmes censurados em todo o país podiam ser exibidos. “Filmes eram censurados no Brasil inteiro e só podiam ser passados aqui, devido a lutas e conquistas que os realizadores tiveram”, diz Vidigal. Essa dimensão de resistência deu ao Festival de Brasília um caráter que vai além da vitrine cultural: ele foi, e continua sendo, um campo de disputa de narrativas.

Nenhum nome encarna melhor essa postura do que Vladimir Carvalho, documentarista que se tornou referência ética e estética para gerações de cineastas brasilienses. Seu Conterrâneos Velhos de Guerra, filmado ao longo de anos e lançado em 1991, é considerado por muitos o maior documentário já feito sobre a capital. Vidigal lembra a importância simbólica de Vladimir com emoção: o nome do cineasta está gravado nas paredes do Cine Brasília, e foi ali que ele foi velado, em 2023, num gesto que a cidade reconheceu como justo e necessário.

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Vladimir Carvalho. — Foto: Divulgação/UFRGS

Das margens para o mundo

A tradição documental que Vladimir Carvalho ajudou a construir não surgiu do nada. Ela bebe diretamente da natureza da própria cidade, que nasce como documento de si mesma. Para Vidigal, o grande risco é tratar o documentário como espelho neutro da realidade. “A grande traição do documentário é pensar que ele é fruto de uma verdade. Porque são verdades, no plural.” É essa consciência crítica que ele vê em cineastas como Adirley Queiroz, cujo trabalho parte da Ceilândia para interrogar os fundamentos do projeto brasiliense. A Cidade é Uma Só traz, segundo o professor, uma reflexão muito provocativa sobre a construção de Brasília e sobre como esses espaços foram tomados e redistribuídos segundo interesses que nunca foram os dos candangos.

Adirley Queiroz é, para Vidigal, o símbolo mais potente de uma geração que quebrou o monopólio estético do Plano Piloto sobre o imaginário audiovisual da cidade. Oriundo da Ceilândia, com formação na UnB e reconhecimento internacional, ele representa exatamente o tipo de trajetória que o Festival de Brasília ajudou a tornar possível. “Tive a oportunidade, pelo Festival, de fazer um curso com o Adirley lá na Ceilândia, perto da Estação Guariroba. No final, ele simplesmente disse: estou indo embora, tenho que arrumar minhas malas, estou indo para os Estados Unidos vender meus filmes”, conta o professor, com admiração. Um diretor de grandeza internacional que vem de uma cidade satélite e que foi formado, ao menos em parte, pelo ecossistema que o próprio Festival construiu ao longo de décadas.

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O cineasta Adirley Queiros. — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Branco Sai, Preto Fica é outro exemplo de como o cinema produzido em Brasília extrapolou os limites locais para se tornar fenômeno nacional e mundial. Ao lado de nomes como José Eduardo Belmonte, Sibélia Amaral, René Sampaio e Iberê Carvalho, Adirley integra uma geração que conquistou espaço nas mostras principais do Festival porque sua produção dialoga com energias que circulam no cinema brasileiro mais amplo. Para Vidigal, esse cinema não é um fenômeno de classe média do Plano Piloto. Essas vozes estão todas arregadas nesse espaço, e isso é o que torna o Festival de Brasília um evento de coragem: ele sempre incentivou o cinema local sem tratá-lo como produto menor.

A arquitetura singular da cidade, longe de impor um vocabulário visual homogêneo ao cinema local, funcionou como provocação estética. Vidigal vê Brasília não como personagem de um único gênero cinematográfico, mas como espaço que concentra múltiplos imaginários. Se tivesse que escolher um lugar que encarnasse essa multiplicidade, não escolheria um monumento, mas o Conic, o conjunto comercial no centro da cidade. “O Conic reúne todos esses imaginários de Brasília. A Brasília do Gama, de Itapoã, da Ceilândia, do próprio Plano Piloto, numa energia que converge ali de forma muito espontânea.” Ali estavam a Escola de Arte Dulcina de Moraes, a Livraria Presença, a Berlim Discos, espaços que fomentaram a cultura da cidade com a mesma intensidade e muito menos glamour do que as marquises de Niemeyer.

Uma cidade que ainda se projeta

O cinema brasiliense tem também uma dívida com a universidade. Foi a chegada de Paulo Emílio Salles Gomes à UnB, nos anos 1960, que ajudou a criar as condições intelectuais para o Festival de Cinema de Brasília. Para Vidigal, a crítica cinematográfica brasileira se divide em antes e depois de Paulo Emílio. Esse legado acadêmico e crítico criou uma cidade que não apenas consome cinema, mas que pensa o cinema, e essa postura reflexiva atravessa décadas de produção local, chegando às novas gerações de realizadores que saem da universidade com uma consciência estética e política raramente encontrada em outras capitais do país.

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Paulo Emílio Salles Gomes. — Foto: Acervo Cinemateca Brasileira

Hoje, 66 anos depois da inauguração, a cena audiovisual brasiliense respira por múltiplos pulmões. O Cine Brasília, reformado com investimento de R$ 1,5 milhão da Lei Paulo Gustavo em 2024, recebeu 91 mil pessoas no ano passado e já soma 45 mil espectadores nos três primeiros meses de 2025. O GDF planeja a construção de uma cinemateca para preservação de películas, parte do projeto original de Niemeyer. A Mostra Brasília celebra narrativas periféricas, LGBTQIAP+, indígenas e quilombolas. Os festivais independentes proliferam. Os coletivos jovens produzem e circulam.

Para Vidigal, essa vitalidade é inseparável do que Brasília sempre foi: uma cidade em construção permanente, que nunca parou de se filmar. “A gente tem imagens do esqueleto da catedral. Tem os protagonistas dessa relação todos documentados. E tem os processos paralelos: Ceilândia sendo formada, Guará sendo formado, o Gama, a história da Vila Mauri.” O cinema brasiliense aprendeu, ao longo de seis décadas, que a cidade não é só o cartão-postal do Congresso ou as tesourinhas do Eixão. É também tudo aquilo que foi deslocado, silenciado e reinventado nas margens. E é exatamente aí, nessa tensão entre o monumento e a periferia, entre o projeto e o vivido, que o cinema mais interessante produzido nesta cidade continua sendo feito.

Filmes essenciais para entender Brasília

  1. Conterrâneos Velhos de Guerra (1991), de Vladimir Carvalho. Documentário épico sobre os candangos que construíram a capital e foram apagados da narrativa oficial. Considerado o maior filme já feito sobre Brasília.
  2. A Cidade é Uma Só (2011), de Adirley Queiroz. Medeia-metragem que reconstrói a remoção forçada dos moradores da Cidade Livre para a Ceilândia, combinando arquivo e ficção com invenção formal radical.
  3. Branco Sai, Preto Fica (2014), de Adirley Queiroz. Premiado no Festival de Brasília e reconhecido internacionalmente, o filme parte de um episódio real de violência policial numa festa de baile funk na Ceilândia para construir uma distopia política sobre a exclusão racial e urbana.
  4. Brasília, Segundo Feldman (1979), de Vladimir Carvalho. Curta que recupera os registros fotográficos de Eugene Feldman durante a construção da capital.
  5. Agente Secreto (2023), de Kleber Mendonça Filho. Longa que passa por Brasília sem tratá-la como cartão-postal, capturando a cidade em sua dimensão política e cotidiana, com cuidado de reconstituição de época.
selo brasília 66 anos (1)

Amanhã, a série especial continua com histórias dos pioneiros da música em Brasília.

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