O documentário brasileiro “Dragões”, dirigido por Miguel Antunes Ramos, terá sua estreia nacional na Première Brasil, durante o Festival do Rio, que será realizado de 1º a 11 de outubro. Produzido pela Enquadramento Produções e pela Esquina Filmes, em parceria com o Canal Curta!, o longa investiga como a produção audiovisual de Jair Bolsonaro contribuiu para a construção de sua imagem política e para sua trajetória até a Presidência da República.
Com 84 minutos de duração, o filme parte de uma pesquisa de quase uma década e reúne mais de 4 mil vídeos publicados por Bolsonaro no YouTube e em outras redes sociais. O material acompanha diferentes momentos de sua trajetória política, desde o período em que ainda era deputado até o fim de seu mandato e a tentativa de ruptura institucional que marcou os últimos anos de seu governo.
A proposta de Miguel Antunes Ramos é observar essas imagens não apenas como registros de acontecimentos, mas como parte de uma estratégia de comunicação e construção de poder. O diretor questiona como vídeos, transmissões ao vivo, selfies e discursos passaram a ocupar um papel central na relação entre políticos e público.
“Dragões” também estabelece conexões entre a produção audiovisual contemporânea e imagens de outros períodos da história brasileira. Um dos exemplos utilizados pelo documentário é a pintura “Independência ou Morte”, de Pedro Américo. Produzida décadas depois da Independência do Brasil, a obra ajudou a consolidar no imaginário coletivo uma representação heroica do episódio histórico.
A aproximação entre diferentes períodos busca mostrar como imagens podem contribuir para estabelecer versões específicas da realidade e transformar acontecimentos em símbolos políticos. No filme, essa lógica é colocada em diálogo com a maneira como as redes sociais passaram a ser utilizadas para produzir identificação, mobilizar públicos e construir narrativas.
Para Miguel Antunes Ramos, a transformação da comunicação política nos últimos anos foi um dos pontos de partida para a realização do documentário. Segundo o diretor, a produção de conteúdo associada a Bolsonaro poderia parecer improvisada ou casual, mas apresentava elementos de planejamento e organização.
A pesquisa do filme acompanha justamente essa aparente contradição: de um lado, uma comunicação marcada pela informalidade e pela proximidade com o público; de outro, uma produção capaz de criar uma identidade política reconhecível e fortalecer uma determinada visão de poder.
A produtora Julia Murat, da Esquina Filmes, afirma que o processo de desenvolvimento do longa permitiu identificar relações entre imagens que inicialmente pareciam desconectadas. Para ela, a montagem revelou como diferentes registros audiovisuais poderiam ser compreendidos como parte de uma construção política mais ampla.
Ao longo do documentário, a investigação ultrapassa a figura de Bolsonaro para refletir sobre o papel das imagens na política brasileira. O filme percorre diferentes momentos da história do país e busca identificar permanências e transformações nas formas de representação do poder.
A obra chega ao público em um cenário no qual as redes sociais se tornaram um dos principais espaços de disputa política. Para Leonardo Mecchi, da Enquadramento Produções, compreender como essas imagens produzem identificação e mobilização é fundamental para analisar o avanço da extrema-direita no Brasil e em outros países.
Depois da passagem pelo Festival do Rio, “Dragões” será distribuído nos cinemas pela Descoloniza Filmes. O longa foi realizado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, em parceria com o Canal Curta!.
Sobre o diretor
Miguel Antunes Ramos é cineasta, roteirista e montador formado em Audiovisual pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Sua filmografia inclui curtas e longas-metragens dedicados a temas relacionados à violência histórica, transformações urbanas e construção de narrativas.
Entre seus trabalhos estão “Banco Imobiliário” (2016), “Filhos de Macunaíma” (2019), “A Flecha e a Farda” (2020) e “A Voz de Deus” (2025), que recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Málaga e o prêmio de Melhor Montagem no Olhar de Cinema de Curitiba.
“Dragões”, de 2026, é seu sexto longa-metragem.