EDUARDO MOURA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, há dois anos, o documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone e Robert S. Wilson, está sendo remontado, segundo Maximilien Arveláiz, um de seus produtores. Por isso, o trabalho ainda não foi lançado em circuito comercial ou plataformas de streaming nem no Brasil, nem em outros países.
Questionado sobre o motivo que levou a equipe a rever a edição do filme e adiar a sua comercialização, Arveláiz respondeu, por mensagem de texto, que “é o nosso método”.
O filme se concentra no momento da prisão do petista, em abril de 2018, no contexto da Lava Jato, e vai até as eleições presidenciais de 2022, em que derrotou Jair Bolsonaro.
Também volta às origens nordestinas e sindicais do petista e dá atenção ao impeachment de Dilma Rousseff, descrita em cena como sua protegida.
Segundo Arveláiz, após a estreia mundial em Cannes, o documentário foi exibido em outros festivais internacionais e despertou o interesse de distribuidores.
“O processo de finalização da obra, no entanto, demandou mais tempo do que o inicialmente previsto, postergando as negociações para seu lançamento comercial, que permanecem em andamento”, diz ele, que divide os créditos de produção com o argentino Fernando Sulichin e com Wilson, também diretor.
Arveláiz, que já trabalhou com Stone no passado, foi embaixador da Venezuela no Brasil e figura próxima ao governo de Hugo Chávez, além de, mais recentemente, ter produzido o documentário “Melania”, sobre a primeira-dama dos Estados Unidos.
Segundo o IMDb, a maior base de dados sobre cinema mundial, depois da exibição na França, em maio de 2024, “Lula” teve apenas exibições públicas em festivais de Kosovo, em agosto daquele ano, e em Busan, na Coreia do Sul, em outubro. Há ainda uma cópia do filme que circula de forma irregular na internet.
O longa não emitiu ainda seu Registro de Obra Estrangeira, junto à Agência Nacional de Cinema, a Ancine, exigido para comercialização de filmes internacionais no país. Segundo Arveláiz, considerando que o filme retrata o atual presidente da República, a produção optou por comercializar os direitos para o Brasil após o fim do ciclo eleitoral.
A previsão inicial era que “Lula” estreasse no país no segundo semestre de 2024, segundo a coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo. O jornalista também noticiou que o lançamento do filme teria empacado após a produção ter dificuldade em conseguir a liberação de imagens oficiais junto ao Palácio do Planalto. Arveláiz nega.
“A decisão preserva o caráter artístico e documental da obra e evita que sua exibição seja interpretada como iniciativa de natureza político-partidária”, afirma Arveláiz. Ele não revela o orçamento do filme, que é feito por uma empresa de pequeno porte.
Não é comum que produções internacionais revelem seu orçamento. No caso de trabalhos que envolvem estrelas e grandes estúdios, especialistas do mercado fazem estimativas dos valores, mas isso é mais difícil no caso de trabalhos menores.
Oliver Stone, autor de produções oscarizadas nos anos 1980 e 1990, como “Platoon”, “Nascido em 4 de Julho” e “The Doors”, se tornou um grande crítico do mercado hollywoodiano e, nos últimos anos, deu uma guinada em direção aos documentários políticos, a maioria deles financiados de forma independente fora dos Estados Unidos.
Um ponto de virada foi a produção do polêmico “Comandante”, de 2003, sobre o cubano Fidel Castro, cuja exibição foi suspensa pelo canal HBO e nunca teve lançamento oficial nos Estados Unidos, apesar de ter circulado por outros países.
Trabalhos dos últimos anos para a TV, como “Mi Amigo Hugo” sobre sua relação com Hugo Chávez, produzido pela emissora Telesur, “Entrevistas com Putin” e “JFK Revisitado: Através do Espelho” exibidos pelo canal americano Showtime não tiveram seus orçamentos estimados ou divulgados.
O mesmo vale para o documentário “Nuclear Now”, de 2022, exibido no Festival do Rio, sobre questões climáticas e a energia nuclear.
Já para seu filme de ficção mais recente, “Snowden: Herói ou Traidor”, de 2016, a imprensa internacional estimou valores entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões.
Meses após o site Intercept Brasil ter divulgado que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao ex-banqueiro para pagar custos do filme “Dark Horse”, sobre a vida de seu pai, Jair Bolsonaro, “Lula” voltou aos holofotes no início de outubro, quando a revista Veja publicou um áudio atribuído ao ex-banqueiro em que ele diz ter destinado R$ 30 milhões a documentário sobre o petista.
A Polícia Federal negou que o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, tenha prestado depoimento ou entregue documentos na sua tentativa de delação premiada a respeito de um suposto financiamento da obra.
Integrantes da Procuradoria-Geral da República também negam que haja um anexo que trate desse tema, assim como a defesa de Daniel Vorcaro.
Auxiliares de Stone disseram à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, que o cineasta não pediu recursos a Vorcaro e nunca havia ouvido falar do banqueiro.