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Cinema

Diretor de “Honestino” era amigo do líder estudantil assassinado em 1973 e utilizou documentos raros para produção do filme

Filmar um período como a ditadura militar impõe um desafio que vai além da preservação de documentos

Agência UniCeub

16/08/2026 10h52

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Foto: Divulgação

Por Isabela Gullane

Dois jovens entram no cinema para assistir ao filme Satyricon (1969), de Federico Fellini, na Praça Roosevelt, no Centro de São Paulo. Um deles se escondia e vivia clandestinamente perseguido pela repressão. O outro estava com medo. Pensava na possibilidade de que estar naquela sessão pudesse colocar seu amigo em perigo. Os amigos eram Honestino Guimarães e Aurélio Michiles.

Na tentativa de confortar seu amigo que estava com medo, Honestino virou para Aurélio e disse: “calma, companheiro, a hora agora é a diversão. Vamos ao Fellini”. O episódio ocorreu em 1970, momento de recrudescimento da ditadura militar.

É de Aurélio Michiles o filme “Honestino”, que estreou nesta semana no País. O cineasta diz, hoje, que a amizade entre os dois explica a motivação especial para a produção.

Aurélio chegou a Brasília em 1968, aos 16 anos, vindo de Manaus (AM), na mesma época de outros jovens amazonenses, entre eles o escritor Milton Hatoum. Ainda estudante do Ensino Médio, ele preparava-se para o vestibular de arquitetura da Universidade de Brasília (UnB). Honestino, então, já era uma das principais lideranças do movimento estudantil brasiliense e estudante de geologia na universidade. 

“Não diria que convivi com o Honestino. O mais correto seria dizer que tive uma relação de amizade”, explica Aurélio. A ideia de transformar essa relação em filme, no entanto, demorou a nascer.

“Essa história sobre o Honestino sempre esteve dentro de mim”, conta. Mas, por envolver uma trajetória “dramática” e “trágica”, o diretor admite que a empurrava para debaixo do tapete.

A decisão de enfrentar essa memória veio de maneira inesperada. Em uma troca de mensagens com a escritora Isaura Botelho, Aurélio recebeu um vídeo da reinauguração da ponte Honestino Guimarães, sobre o Lago Paranoá, em Brasília. Nas imagens, Lucas, neto de Honestino, discursava sobre o avô.

Aurélio comoveu-se e ligou para Isaura e anunciou: “Vou fazer um filme sobre o Gui (apelido de Honestino”.

Pouco depois, recebeu dela uma caixa com objetos que haviam pertencido a Honestino: cartas destinadas a familiares e amigos, fotografias, poesias, documentos da Ação Popular e outros vestígios de sua trajetória.

Foi também nesse processo que Aurélio encontrou Nilson Rodrigues, produtor e exibidor de cinema brasiliense que já carregava uma ideia semelhante. O encontro ajudou a transformar a intenção em produção.

Entre o arquivo e a memória

Filmar um período como a ditadura militar impõe um desafio que vai além da preservação de documentos.

Inspirado pelo cineasta Alberto Cavalcanti, que não enxergava uma fronteira rígida entre documentário e ficção, o diretor buscou construir uma narrativa que ultrapassasse a simples reunião de documentos históricos. O objetivo era encontrar uma dramaturgia capaz de estabelecer uma relação entre o passado e o presente.

“O mais importante é identificarmos a metáfora que se encontra em cada história a ser revelada”, afirma.

No caso de Honestino, a metáfora está justamente na tentativa de iluminar um lugar ainda obscuro da história brasileira. Não se trata apenas de recuperar um personagem desaparecido, mas de compreender o que sua trajetória pode dizer ao presente.

Honestino não aparece apenas como uma vítima da ditadura. Ele é apresentado como alguém que enfrentou os dilemas de sua geração e tomou decisões a partir das questões políticas de seu tempo.

Ao mesmo tempo, sua história é colocada diante dos dilema do presente de defesa da democracia.

O que significa lembrar

As imagens em preto e branco, os documentos oficiais e os relatos históricos registram os acontecimentos, mas não necessariamente conseguem transmitir a sensação de viver sob ameaça.O jovem que enfrentava a repressão também era aquele que queria assistir a Fellini com um amigo.

Ao realizar o filme, Aurélio diz que nunca pensou inicialmente em provocar uma grande reação social. Seu desejo era mais simples: levar o público às salas de cinema para que brasileiros pudessem conhecer aquele jovem que dedicou a vida à defesa da liberdade e da democracia.

Honestino foi assassinado aos 26 anos pela ditadura militar. Seu corpo nunca foi encontrado.

O desaparecimento, portanto, não terminou com o fim do regime. Permaneceu como uma ferida aberta para familiares, amigos e para a própria história brasileira.

Aurélio espera que Honestino possa não apenas fazer o público conhecer sua história, mas também despertar alguém que saiba algo ainda não revelado sobre seu desaparecimento.

“Caso o filme desperte alguma vontade inaudita de alguém que saiba dessa história e queira revelar, essa é a hora de fazer justiça com esse hediondo episódio”, afirma.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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