ALESSANDRA MONTERASTELLI
GRAMADO, RS (FOLHAPRESS)
Em uma noite fria de 13 graus, foi o filme “Feito Pipa” que esquentou os corações do público na sala lotada do Palácio dos Festivais, em Gramado, neste sábado (15).
O longa do cearense Allan Deberton, que compete a melhor filme no Festival de Gramado, já desembarcou no sul do país, seguido de um bom presságio. Foi elogiado pela crítica na sua estreia no Festival de Berlim, em fevereiro, em que conquistou o Urso de Cristal –prêmio concedido pelo público jovem– e o grande prêmio do júri da mostra paralela Generation Kplus.
“Feito Pipa” acompanha o cotidiano de Gugu, interpretado pelo promissor Yuri Gomes, um garoto que vive em uma pequena cidade do Ceará com a avó, vivida por uma Teca Pereira potente em cena.
Gugu gosta de se maquiar, dançar, pintar as unhas e jogar futebol. Os gostos associados ao mundo feminino são motivo de repressão por parte do pai do menino, Batista, encarnado por Lázaro Ramos, que vive com outra mulher e filha.
Pelas fotos espalhadas na casa de Gugu, entende-se que sua mãe morreu por algum motivo ainda desconhecido. A vida de liberdade e acolhimento do menino muda quando a avó começa a adoecer.
É uma narrativa notável em sua simplicidade, que dispensa clichês comuns a enredos de protagonismo infantil. Deberton também driblou caminhos fáceis para desenvolver o drama de uma infância queer no interior do Brasil, sem usar recursos apelativos trágicos ou diálogos expositivos.
“Feito Pipa” foi uma exibição contrastante com a de “Antártida”, filme que abriu o festival na sexta-feira (14). Com elenco estelar que inclui Andrea Beltrão, Marina Ruy Barbosa e o próprio Lázaro Ramos, a superprodução dos estúdios da Globo é um thriller recheado de efeitos especiais para emular o continente gelado.
“Antigamente, você ia em uma videolocadora e estava escrito: ‘cinema brasileiro’, como se fosse um gênero só”, diz Ramos, que estrela os dois filmes e eternizou, no sábado, suas mãos na tradicional calçada da fama de Gramado. “Estar aqui com um thriller psicológico, uma produção gigante, e com um filme de autor, coloca luz no que o Brasil tem de melhor, diversidade.”
“Antártida” foi totalmente gravado em estúdio, com um alto investimento da Globo em telões que emularam a paisagem polar e em efeitos práticos para recriar o clima gélido hostil, entre neve falsa e enormes ventiladores.
Na trama, Inês, interpretada por Barbosa, é uma cientista recém-chegada na base brasileira na Antártida, ocupada principalmente por homens, com exceção de Elizabete, vivida por Beltrão, a segunda no comando, Marina, na pele de Leandra Leal, e Rose, interpretada por Mariana Sena.
O clima masculino e hostil transparece logo nos primeiros momentos de Inês na base. Há uma festa, ela fica alcoolizada, adormece e é estuprada. A partir daí, há uma sucessão de problemas, e Elizabete é forçada a assumir a chefia da base.
Ela inicia uma investigação para descobrir quem cometeu o crime, enquanto tramas paralelas entre os personagens interferem em sua busca. Para piorar, os geradores de energia do local estão falhando, o que faz todos temerem a invasão do frio.
Pouco antes da exibição de “Antártida”, Barbosa também estampou suas mãos na calçada de Gramado, após desfilar pelo tapete vermelho. Uma multidão de pessoas se amontoou ao lado das grades que delimitavam o local para acenar a Barbosa, Ramos e Leal. Beltrão, que será homenageada com o Oscarito, troféu máximo dado a atores e atrizes por sua carreira, não pode vir ao festival devido a uma cirurgia no pé.