O cinema argentino vive uma das maiores crises de sua história, segundo o presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina, Hernán Findling. Em entrevista à Agência Brasil, durante a cerimônia de entrega dos Prêmios Platino, em Cancún, no México, ele afirmou que o esvaziamento do investimento público reduziu drasticamente a indústria audiovisual e afetou especialmente o cinema de autor.
Findling disse que o Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), tradicional apoiador do setor, foi esvaziado com a chegada do governo de Javier Milei. Segundo ele, o órgão “cortou totalmente todo o tipo de subsídio ou ajuda”, e a produção caiu de cerca de 70, 80 ou 100 filmes por ano para 10 ou 12. Para o dirigente, o desmonte atingiu obras autorais, críticas e documentários, que não têm apelo comercial suficiente para sustentar o mercado sozinhos.
Na avaliação do presidente da academia, as plataformas de streaming passaram a ocupar um espaço central na produção audiovisual argentina, sobretudo em um contexto de desinvestimento. Ele reconhece a importância desses serviços para manter empregos e dar visibilidade às obras, mas afirma que esse modelo não pode ser a única alternativa para o cinema. Findling também apontou que, nesse cenário, os direitos autorais passam a ficar mais concentrados nas empresas, com menor circulação na economia local.
O professor Santiago Marino, da Universidade de Santo André, em Buenos Aires, fez uma avaliação semelhante ao comentar as declarações de Findling. Segundo ele, há um risco de as plataformas se tornarem as únicas responsáveis por decidir quais histórias podem ser contadas e quais obras entram ou não nos catálogos.
Findling também relacionou a crise a uma disputa ideológica no país. Segundo ele, o governo argentino trava uma batalha contra quem pensa diferente, e há a ideia de que profissionais da cultura se opõem politicamente à gestão. Para o dirigente, o cinema não deve ser visto apenas como expressão cultural, mas também como trabalho e economia. Ele afirmou ainda que, para cada dólar investido na indústria audiovisual, o retorno pode ser de dois ou três dólares.
Mesmo com a crise, o cinema argentino continuou recebendo reconhecimento nos Prêmios Platino. A série O Eternauta ganhou vários troféus, entre eles melhor criador para Bruno Stagnaro e melhor ator para Ricardo Darín. Guillermo Francella, por Homo Argentum, recebeu um prêmio pelo conjunto da obra. Findling destacou que todos esses premiados foram formados dentro de um sistema que existia graças ao INCAA.
Diante da redução do apoio estatal, produtores argentinos passaram a buscar coproduções internacionais, especialmente com países da América Latina. Segundo Findling, essa tem sido uma saída viável para o setor. Ele afirmou ainda que a Academia de Cinema da Argentina ampliou sua atuação para negociar espaços com embaixadas e festivais, citando uma apresentação de filmes e projetos em Málaga, na Espanha, e uma negociação com o Festival de Cinema de Rotterdam, na Holanda, para 2027.
Com informações da Agência Brasil