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Cinema

Abbas Kiarostami, mestre do cinema iraniano, é lembrado em mostra em São Paulo

Foi em 1970 que lançou seu primeiro trabalho no cinema, o curta neorrealista “O Pão e o Beco”, que acompanha um garoto perseguido por um cachorro

Redação Jornal de Brasília

13/07/2026 11h25

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Abbas Kiarostami. Foto: Divulgação

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)

Kleber Mendonça Filho ainda se lembra de um de seus primeiros contatos com a obra do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. Foi uma sessão de “O Vento Nos Levará”, de 1999, em um cinema do Recife que já não existe mais. “Foi muito impactante descobrir essa onda iraniana, que chegou com força no Brasil naqueles anos”, afirma.

Kleber, diretor de “Bacurau” e “O Agente Secreto”, volta agora àquela lembrança na condição de curador de uma mostra sobre Kiarostami no cinema do Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Serão quase 30 filmes do cineasta iraniano, alguns inéditos no Brasil. A mostra fica em cartaz de 17 de julho até o fim do ano.

Nascido em 1940 em Teerã, Kiarostami começou a carreira na pintura e na publicidade. Foi em 1970 que lançou seu primeiro trabalho no cinema, o curta neorrealista “O Pão e o Beco”, que acompanha um garoto perseguido por um cachorro.

Vieram mais tarde os consagrados “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” (1987), “Close Up” (1990) e “O Vento Nos Levará” (1999). Um de seus filmes mais conhecidos, “Gosto de Cereja” (1997), levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Kleber credita parte da popularidade do cinema iraniano no Brasil ao papel de Leon Cakoff, fundador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Muitas vezes há esse papel de um curador que dá um empurrão a um determinado movimento artístico”, diz. É o papel que, de certa forma, assume agora.

Kiarostami surpreendeu —no Brasil e no mundo— desde a estreia com seu olhar afinado aos detalhes do cotidiano, oferecendo delicados retratos da vida iraniana. Era uma maneira diferente de filmar, em comparação ao cinema americano, de escopo épico e pontuado por cenas de ação.

“Muito me chama a atenção essa conversa, que até hoje persiste, de que o cinema iraniano é, entre aspas, simples”, afirma Kleber. “Temos que ter cuidado com o que queremos dizer por simplicidade. Ter uma economia na linguagem e ainda assim dizer muito não é para todos.”

Longe de ser redutiva, a modéstia do cinema de Kiarostami e de seus pares iranianos “carrega muita poesia e muita complexidade”, Kleber afirma.

Perguntado sobre como aquela sessão em Recife influenciou sua obra, Kleber hesita. Olha ao redor —fala com a reportagem por vídeo, de Bordeaux— e pega um alfinete. O adereço parece sair de um roteiro bem-escrito. “É muito difícil pegar um alfinete e mostrar onde alguém como Werner Herzog ou John Carpenter me influenciou”, diz. “Mas uma coisa que o cinema iraniano me deu de maneira prática foi como expressar uma ideia da maneira mais tranquila possível e, ainda assim, com força.”

Kleber conta que às vezes assiste a um filme americano e pensa: “É sério que essa conversa entre dois personagens tem 14 ângulos de câmera e levou dois meses para ser gravada? Precisa jogar toda essa areia no rosto do espectador?” Em vez disso, Kleber diz que segue o exemplo iraniano e busca “a maneira mais verdadeira, do ponto de vista humano, de contar histórias”.

Como a mostra inclui dezenas de títulos, organizados de forma cronológica, o público terá a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento da linguagem artística de Kiarostami. “Uma retrospectiva dá esse fio condutor, essa constância do olhar, em que você consegue comprimir décadas em um tempo mais curto”, Kleber diz.

“Revi os filmes, o que é sempre um momento tocante para mim”, afirma. “Sou muito sensível a essa ideia. É quase como ter acesso aos diários de alguém. Não estou exagerando. Em cada filme, você vê a vida da pessoa em ideias, movimentos, imagens, visões de mundo.”

Dentro da programação, há algumas sessões duplas, com a exibição de dois filmes. A ideia, explica, é permitir que o público consiga dar um zoom em um momento específico da carreira de Kiarostami e ver suas transformações em escala microscópica. “O cineasta não sabe que filme vai fazer daqui a alguns anos. Mas, quando você vê em retrospectiva dois filmes separados por esses anos, vê que eles são irmãos. Há coisas em comum, às vezes um simples movimento de câmera.”

A mostra foi planejada para marcar os dez anos da morte de Kiarostami, ocorrida em julho de 2016, mas também coincide com uma crise geopolítica. Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro deste ano, bombardeando o país e matando seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

As ofensivas não são apenas as do conflito, sugere. “Existe uma propaganda muito pesada dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã como uma nação”, diz. “O cinema consegue furar esse discurso de guerra e te mostrar uma versão que é muito mais natural e verdadeira da poesia do povo iraniano.”

ABBAS KIAROSTAMI EM RETROSPECTIVA

  • Quando A partir de 17 de julho; diversos dias e horários
  • Onde IMS – av. Paulista, 2424, São Paulo
  • Preço De R$ 5 a R$ 10 por filme
  • Link: https://ims.com.br/mostra/abbas-kiarostami-em-retrospectiva/

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