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Cinema com ela
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Cinebiografia ‘Hungria, A escolha de um sonho’ retrata trajetória do rapper de Ceilândia

O longa que escolhe a homenagem onde poderia ter escolhido a verdade, e ainda assim diz algo importante sobre o país que produziu esse rapper, estreia nesta quinta-feira (7)

Tamires Rodrigues

07/05/2026 5h00

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Foto: Divulgação

Existe uma geografia do esquecimento no Brasil que a maioria dos mapas culturais prefere não desenhar. Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal, não foi planejada para produzir ícones. Foi planejada para receber quem sobrava, os trabalhadores da construção de Brasília e suas famílias, empurrados para longe do projeto modernista que eles mesmos ergueram com as próprias mãos. Décadas depois, da mesma periferia que o poder público tratou como solução de descarte, surge Gustavo da Hungria Neves, o rapper que construiu mais de vinte anos de carreira sem que as rádios convencionais soubessem muito bem onde encaixá-lo. A cinebiografia “Hungria: A Escolha de um Sonho” não é apenas um filme sobre um artista. É um documento sobre o que este país sistematicamente ignora até que se torne impossível ignorar.

A decisão dos diretores Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira de centrar a narrativa na origem, e não no auge, é a mais politicamente honesta que o projeto poderia tomar. Começar pelo palco seria mentira. Começar pelo quarteirão é jornalismo. O garoto que abandona os estudos, que vê amigos desaparecerem para o tráfico e para os números frios das estatísticas de violência, que carrega o peso de um ambiente que empurra com força para baixo, esse garoto não é exceção dramática. É retrato fiel de uma geração inteira que o cinema brasileiro ainda não aprendeu a filmar sem condescendência. Aqui, a câmera olha de frente, sem o verniz folclórico que costuma transformar pobreza em cenário.

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Foto: Divulgação

Gabriel Santana carrega esse peso com uma precisão que surpreende quem o conhece apenas pelas telenovelas ou pelo Big Brother. Há um entendimento corporal no ator, uma forma de ocupar o espaço em cena que não pede licença e não pede simpatia. Ele não interpreta Hungria como herói em construção, mas como alguém que ainda não sabe que vai se tornar um. É uma distinção sutil e fundamental. O jovem Gustavo que Santana habita não enxerga o futuro. Enxerga o próximo dia, a mãe que precisa ser poupada da verdade, o amigo que puxa para um lado e o sonho que puxa para o outro. É nessa tensão cotidiana, sem música de fundo e sem câmera lenta, que o filme encontra sua verdade mais crua.

O projeto foi aprovado e acompanhado pelo próprio Hungria em todas as etapas, e isso cria um contrato implícito com o espectador que é preciso nomear sem rodeios. Não haverá revelações incômodas. Não haverá desvios polêmicos. O que existe é uma narrativa sancionada, com tudo que esse adjetivo carrega de proteção e de limitação. O filme opta por não inventar conflitos onde a realidade certamente os teve, e há momentos em que essa escolha ecoa como um silêncio levemente ensaiado. Mas é possível respeitar o pacto sem deixar de enxergá-lo, e ainda assim reconhecer que o resultado serve ao seu propósito com dignidade.

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Foto: Divulgação

A descoberta mais valiosa do longa tem nome e sobrenome: Ramon Brant, no papel de Gabiru. Se Hungria é a exceção que o filme celebra, Gabiru é a regra que o filme chora sem derramar uma lágrima visível. O amigo que acredita primeiro, que empurra quando falta fôlego, que compartilha o sonho antes de ser alcançado por um destino que o Brasil reserva para a maioria dos meninos de Ceilândia. Brant entra em cena e instantaneamente reorganiza a hierarquia emocional do filme. Há nele uma leveza que não é superficialidade, uma graça que carrega luto. É o tipo de atuação que faz o espectador perceber, muito depois de sair da sala, que estava olhando para o personagem errado.

André Ramiro e Chico Sant’anna completam um elenco que recusa o papel decorativo. São atores que trazem na bagagem filmes que pesam, e essa bagagem aparece em cena não como exibicionismo, mas como densidade. Cada aparição deles funciona como lembrete de que histórias como a de Hungria não acontecem no vácuo. Acontecem dentro de comunidades inteiras de pessoas que também tiveram escolhas a fazer, sonhos a abandonar ou a defender com unhas e dentes.

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O rapper Hungria na vida real. – Foto: Reprodução

Tecnicamente, o filme não arrisca o que não domina, e há sabedoria nessa contenção. A Ceilândia filmada por Cavalcante e Vieira não é a periferia estetizada que o cinema independente às vezes entrega como se fosse rebeldia, nem o cenário de miséria que o cinema comercial usa para contextualizar superação. É um lugar com textura, com cotidiano, com uma normalidade que o olhar de quem cresceu ali reconhece imediatamente. Esse é o tipo de acerto que não aparece nos créditos mas que sustenta tudo o que aparece na tela.

Conclusão

“Hungria: A Escolha de um Sonho” não vai mudar o debate sobre o cinema nacional nem inaugurar uma nova linguagem para as cinebiografias brasileiras. O que ele faz, com uma seriedade que merece reconhecimento, é colocar na tela uma história que o Brasil mainstream ainda não sabe muito bem como processar: a de um artista que venceu sem que as instituições culturais do país tivessem o menor papel nisso. Hungria não foi descoberto por uma gravadora, não foi revelado por um programa de televisão, não foi legitimado por nenhuma crítica especializada antes de já ser grande. Ele foi construído de baixo para cima, tijolo por tijolo, numa lógica que o mercado não previu e que o filme, ao menos, tem a honestidade de não fingir que entende completamente.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção:
Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira;
Roteiro: Jonah Costa e Cristiano Vieira;
Elenco: Gabriel Santana, André Ramiro, Ramon Brant, Taty Godoi;
Gênero: Drama, Biografia, Música;
Duração: 104 minutos;
Distribuição: Studio 10;
Classificação indicativa: 12 anos;
Assistiu ao longo por intermédio da assessoria

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