Anna Beatriz Lisbôa
Especial para o Jornal de Brasília
A preocupação do diretor norte-americano Samuel Fuller (1912 – 1997) em seus filmes era a mesma de um repórter escrevendo uma matéria: agarrar o espectador pelo pescoço desde a primeira cena. Isso porque antes de lançar o primeiro longa-metragem aos 37 anos, Fuller havia trabalhado como repórter policial desde a adolescência. Além disso, foi cartunista, escreveu novelas de crime e serviu ao exército na Segunda Guerra Mundial.
Esse diretor singular em Hollywood é homenageado pela Versátil com a caixa A Arte de Samuel Fuller, que reúne os filmes O Beijo Amargo (1964), Paixões que Alucinam (1963), O Quimono Escarlate (1959) e Casa de Bambu (1955).
Suas experiências, seja nos campos de batalha ou na redação, Fuller imprimiu de maneira visceral em película. Um genuíno autor – antes mesmo dos críticos franceses cunharem a expressão nos anos 1950 – Fuller escreveu e produziu a maioria de seus filmes, remodelando à sua maneira as convenções de gêneros como o melodrama, o western e o filme noir.
Como um jornalista construindo o seu lide, Fuller inicia os filmes pelo que mais interessa. A impactante sequência de abertura de O Beijo Amargo (1964) deixa transparecer o repórter sensacionalista por trás do roteiro: vemos a prostituta Kelly (Constance Towers) golpeando seu cafetão bêbado.
A sequência abre o filme em um corte seco e Towers parte para cima da câmera cambaleante. Sua peruca cai (puxada pelo próprio Fuller em um dos cameos mais insólitos do cinema) e revela sua cabeça completamente careca.
Sonho americano desmascarado
A personagem busca redenção na vida simples de uma pequena cidade. Ela ganha o coração do homem mais rico e querido do local. O frágil conto de fadas, no entanto, é desmarcarado quando Kelly descobre os impulsos doentios do noivo.
A mitologia norte-americana é alvo constante do cinismo de Fuller. Enquanto O Beijo Amargo usa uma cidadezinha como microcosmo dos Estados Unidos, Paixões que Alucinam (1963) transforma o sanatório em alegoria para a sociedade americana. O repórter Johnny Barrett (Peter Breck) se infiltra em uma instituição psiquiátrica para tentar resolver um assassinato. Lá, ele encontra pacientes que refletem doenças sociais, como é o caso do estudante negro que internalizou o racismo do qual foi vítima e passou a reproduzi-lo com virulência.