Mateus Baeta
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Bob Dylan está morto. Acredite. Se não tivesse morrido tantas vezes, de causas diversas, ele não teria sobrevivido. Não é assim que os mitos se perpetuam? Robert Allen Zimmerman, um pirralho quase sem voz própria que ainda tateava o folk, discípulo de Woody Guthrie? Morto.
Dylan, talento precoce, endossado por Joan Baez e profeta de uma era? Morto. Bob elétrico, traidor de um movimento, gênio precursor de uma revolução? Também morto. E poderíamos ficar nisso por décadas.
Amanhã, quando o senhor septuagenário subir ao palco do Ginásio Nilson Nelson, pela primeira vez em Brasília, uma cidade vinte anos mais nova que ele, nenhuma dessas personas vai estar lá. Não o tempo inteiro. Nem mesmo o consagrado autor de Love And Theft e Modern Times, dois álbuns fundamentais deste quase recém-nascido século. Nem mesmo o frontman que fez 89 shows no ano passado e apresentou 64 canções diferentes.
Talvez Dylan abra o espetáculo com Leopard-Skin Pill-Box Hat, a estupenda faixa de Blonde On Blonde (1966), como ele fez em 49 apresentações na turnê de 2011. Mas ela não será a mesma. Talvez ele encerre a noite com Like A Rolling Stone, o clássico de 1965 (que serviu de despedida por 19 vezes na temporada passada); talvez All Along The Watchtower (20 vezes); ou quem sabe Blowin’ In The Wind (29). Mas diante dos brasilienses elas serão canções únicas, que guardarão algumas semelhanças com as músicas de mesmos nomes apreciadas por ingleses, americanos e australianos há alguns meses.
Sim, são faixas antigas. A maioria delas é do tempo em que o Niemeyer ainda penteava o cabelo. Mas não é o mesmo Dylan que as compôs que as interpreta. O músico de hoje, de sempre, recompõe, reinterpreta, reanima.
Para isso, a banda que o sustenta é crucial. O baixista Tony Garnier, o guitarrista Stuart Kimball, o baterista George Receli, o também guitarrista Charlie Sexton e o multiinstrumentista Don Herron, que nos shows costuma tocar violino, mandolin, trompete e pedal steel, acompanham Dylan há anos. Juntos, eles são capazes de não apenas servir de apoio, mas de entender o espírito que o chefe quer dar a cada canção, a cada passagem. E que nunca é o mesmo da noite passada.
É assim que, diante dos nossos olhos, como num lance de mágica, o ícone de cabelos revoltos renasce. E cada Bob Dylan, um instante após o outro, ressurge inquebrantável, alheio à passagem do tempo. A lenda vive. Entre nós.