
Ben Affleck é ator, diretor, roteirista e já ganhou duas vezes o Oscar®. Estava preparando seu próximo projeto como diretor quando surgiu a oportunidade de trabalhar com David Fincher em Garota Exemplar. Ele admite que foi “a realização de um sonho”. Adiou sua produção para fazer o papel de Nick Dunne, ex-jornalista que passa a ser o principal suspeito do desaparecimento de sua esposa Amy (interpretada por Rosamund Pike).
O livro que deu origem a Garota Exemplar é um fenômeno editorial que já atingiu o topo de listas dos mais vendidos no mundo todo. O livro trata sobre casamento e a mídia, tendo como pano de fundo uma economia desestabilizada, e foi escrito por Gillian Flynn, que já escreveu para a revista Entertainment Weekly e também fez o roteiro do filme.
Atualmente, Ben Affleck está em Detroit filmando Batman v Superman: Dawn of Justice, mas separou algum tempo para conversar sobre Garota Exemplar.
Q: Quando você soube de Garota Exemplar?
A: O livro era muito comentado em Hollywood. Todo mundo o estava lendo. Como se sabe, Hollywood é um tipo lugar onde todo mundo fala sobre a mesma coisa até surgir a próxima coisa. E esse livro foi uma dessas coisas. Quando ouvi falar dele, eu o li e gostei muito. Pensei que seria bem difícil transformá-lo em filme. Depois, guardei o livro e não pensei mais nele até que recebi um telefonema: David Fincher queria me encontrar para falar de Garota Exemplar’. Eu já pretendia dirigir outro filme, mas a chance de trabalhar com David Fincher era a realização de um sonho. Então adiei meu outro projeto, e a Warner aceitou isso muito bem. Tive a chance de fazer isso, e foi incrível. Foi como se alguém viesse até mim e me entregasse um sonho numa bandeja de prata. Fiquei muito empolgado.
Q: Quais foram suas primeiras impressões sobre o personagem Nick e sobre a história em geral?
A: Eu sabia que seria um papel aparentemente fácil, mas realmente difícil de interpretar, porque a perspectiva do público sobre o personagem teria que ser calibrada com muito cuidado. A ideia era de que a gente muda de ideia a respeito dele enquanto a história se desenrola. Nem o David nem eu queríamos retratá-lo de uma forma que não fosse realista ou que não fosse dramática. Tínhamos que ter cuidado com detalhes. Essas são coisas mais difíceis sob alguns aspectos. Porque tudo tem que ser convincente… ‘Hmm, talvez ele tenha feito isso…’ ‘Talvez ele não tenha feito…’ Esse tipo de coisa. Se não houver essas dúvidas na mente da plateia, o filme não funciona.
Q: Sobre que especificamente você e David conversaram?
A: Por exemplo, ele disse: ‘Veja bem, não pode haver nenhuma vaidade na sua atuação. Esse homem é fraco, e seu interior está sendo exposto.’ Gostei dessa ideia. Tenho me decepcionado com a vaidade que tenho visto nos filmes, porque isso estraga o realismo. Então, eu aceitei. Talvez não aceitasse se fosse outro diretor, mas, com o David, eu faria até a lista telefônica. Então passamos a trabalhar um personagem que parecesse de verdade, com quem a gente pudesse se identificar com relação ao seu casamento e seu relacionamento… e que nos fizesse crer que talvez ele tenha matado a esposa.
Q: Então parte do desafio foi interpretar alguém que sabe que está sendo observado? É como interpretar alguém que interpreta um papel.
A: Sim, acho que isso é importante, a ideia de se fazer um papel. Foi uma coisa muito forte e ressonante para mim neste filme. A maneira com que a mídia nos coloca em certas posições: ‘Certo, você vai ser o marido apaixonado’ ou ‘Você vai ser o marido assassino’ ou ‘Você vai ser o traidor escandaloso’ ou qualquer outra coisa. As pessoas viram arquétipos fáceis de se digerir dentro da mídia. E é claro que existe a postura que é exigida nos relacionamentos. Sabe como é, você espera alguma coisa da pessoa, ela espera alguma coisa de você na relação conjugal, a esposa dedicada, o marido obediente, e, sempre que alguém descumpre essas expectativas, isso causa problemas. E, quando o Nick não se comporta da forma que um marido em luto deveria se comportar, as pessoas que estão acompanhando o caso pela mídia ficam furiosas. Achei isso muito interessante.
Q: Você é muito vigiado pela mídia.
A: Sim, sem dúvidas, eu mesmo passei por isso, tanto em termos de ser retratado de formas que eram absolutamente irreconhecíveis para mim quanto em períodos da minha vida em que decidi não me importar mais com as consequências e ser apenas eu mesmo, não importa o que aconteça. Ver a resposta negativa que tive disso foi algo muito forte, então pensei: ‘Por que devo me importar tanto com isso? Por que isso causa tanta hostilidade?’
Q: Existem também muitos veículos da mídia, especialmente na Internet, em que talvez a audiência seja mais importante que a verdade.
A: Alguns veículos parecem não ter nenhuma preocupação com a verdade, mas o conteúdo deles é repassado sem verificação por veículos mais ‘responsáveis’, e então, na era da Internet, é mais fácil apenas copiar e colar e publicar o conteúdo depressa do que parar e pensar que aquilo não parece verdadeiro, que é melhor pesquisar, ter mais cuidado…
Q: Nas seções de comentários de muitos desses artigos, às vezes, parece que a Internet está cheia de gente revoltada.
A: É uma loucura. Recentemente, eu estava pesquisando alguma coisa no meu iPhone. Abri uma página do Google ou do YouTube e vi gente travando uma verdadeira guerra sobre a rivalidade entre Android e iPhone. De repente, tinha gente dizendo: ‘Vá se f…, vou cravar uma estaca no seu coração, seu maldito!’ Como alguém pode odiar tanto um telefone?
Q: Você acha que o mundo está mais raivoso? E isso é abordado em Garota Exemplar?
A: Acho que parte disso passa por uma seleção natural, porque as pessoas mais raivosas tendem a escrever comentários com mais frequência. Parece uma amostra geral da população, mas não é realmente. Bem, eu não conheço ninguém que escreva comentários na Internet. Entende o que eu digo? Parece que são pessoas revoltadas com elas mesmas que soltam a raiva contra qualquer coisa que leiam. Porque quase não existe assunto na Internet que mereça todo esse ódio e rancor que vemos na seção dos comentários. Não é só isso. Os assuntos que talvez merecessem de fato esse tipo de reação, como o ressurgimento da milícia Janjaweed em Darfur ou a situação atual do Iraque, recebem apenas meia dúzia de comentários. Nesses casos, vemos apatia.
Q: Além da mídia moderna, você acha que o filme reflete também sobre o casamento moderno?
A: Na verdade, o tema central do livro é o casamento. Então o filme também é sobre casamento, embora o seja sob o ponto de vista do David. Tem mais uma leve camada de interpretação. E a abordagem da Gillian é um pouco perversa. Então é a perversão de uma perversão! Mas acho que o filme acaba sendo sobre como usamos máscaras no início dos relacionamentos, para que a outra pessoa fique atraída por nós, para aumentar o nosso apelo. Tentamos adulterar a nós mesmos para nos encaixarmos nas expectativas, para cumprir uma função. Depois, chega o momento do casamento em que as máscaras caem, fecha-se a porta e descobrimos quem realmente somos e quem o outro realmente é. Existem muitas surpresas nesse processo. Acho que esse processo é um elemento central que reúne todos os outros temas do livro e do filme.
Q: Você acha que a abordagem do filme para esses temas será polêmica?
A: Bem, o David é… ele tem um ponto de vista bem diferente de todo mundo ou é simplesmente subversivo, mas sua abordagem para essas questões é bem forte e interessante, e, sim, é muito provocador, para dizer a verdade. Em 20 anos, nunca fiz um filme que fosse capaz de criar o tipo de conversa entre homens e mulheres que este filme provoca Acho que, depois de vê-lo, as pessoas vão ter opiniões bem diferentes e discordar dos pontos de vista porque ele explora bem a fundo as maneiras com que homens e mulheres entendem essas coisas de um jeito ou de outro.
Q: Sob esse aspecto, em termos da provável reação que ele vai causar, acha que é semelhante a filmes como Atração Fatal ou mesmo Proposta Indecente, em que a opinião do público ficará muito dividida?
A: Sim. Acho que é uma excelente observação, porque considero que este filme faz o que outros filmes de grande importância cultural com relação aos papéis de gênero já fizeram, que é tomar questões que são comuns a todos os homens e mulheres em relacionamentos, ou para muitos deles, e as expor em maior escala com o propósito de ilustração e discussão. Seu tema central são dúvidas básicas e provocativas. Acho que é um destes filmes. Espero que faça tanto sucesso quanto eles! Mas ele certamente tem essas qualidades, como você diz… Atração Fatal, A Guerra dos Roses, Proposta Indecente… filmes em que não há uma resposta simples e que retratam os relacionamentos de uma forma incômoda.
Q: Então é um filme que levanta questões difíceis?
A: Sim, são questões muito difíceis e muito honestas. Obviamente, não é todo mundo que é acusado de matar a esposa. Não é todo mundo que recebe a oferta de um milhão de dólares para deixar sua esposa dormir com outro homem. Não é todo mundo que tem o coelho assassinado numa panela!Mas, na raiz de todas essas coisas, estão questões fundamentais referentes a relacionamento, questões que enfrentamos.
Q: Os dois personagens principais, a Amy e o Nick, ambos perderam seus empregos e mudaram-se para outra cidade. As carreiras que os definiam praticamente evaporaram no mundo moderno. O filme explora isso?
A: Acho que sim. Acredito que explora em segundo plano; a ideia de alienação da classe média. É a erosão da camada mais baixa da classe média. É a lenta desilusão a que se chega com essa descoberta. Não se pode mais pagar as contas e estudar na faculdade, tirar boas notas e conseguir um emprego.Ou o emprego que se deseja. Então, na medida em que essa promessa desmorona na América, talvez parte da nossa estrutura moral desmorone também. Sob esse aspecto, existe uma ligação para essas duas pessoas, de que o lado mais promissor de suas identidades se perdeu com as circunstâncias econômicas, porque isso corroeu sua autoestima e lhe causou efeitos, efeitos que nos tornam pessoas piores.
Q: Então você tenta evitar esse tipo de tendência de mídia apelativa?
A: A verdade é que eu também posso ser atingido por ela. Nenhum de nós está imune a essas notícias
e cobertura. Parte da origem desse tipo de cobertura é a impaciência, porque as coisas têm que ser rápidas, têm que ser repassadas e existe concorrência, e por causa da Internet. Existe cada vez menos tempo para se verificar os fatos e executar o trabalho de forma apropriada. Cada vez menos veículos de mídia estão fazendo isso. Cada vez menos veículos têm correspondentes estrangeiros, então eles dependem completamente de terceiros. Por exemplo, poderíamos fazer um bom filme sobre a ideia de alguém que falsifica uma grande notícia internacional e cria um enorme boato porque ninguém está realmente verificando os fatos. É tipo uma história que todo mundo repassa.
Q: Sua experiência como diretor mudou seu trabalho como ator ou seu entendimento de como interpretar?
A: Acho que dirigir me fez ser um ator muito melhor. É uma excelente aula de interpretação. Acho que todo ator que tenha a oportunidade de dirigir um filme deve aproveitá-la, não importa se é um filme grande ou minúsculo. A chance de estar no outro lado durante os testes de elenco, o processo de atuação no monitor e a chance de editar uma atuação são um excelente aprendizado. Pelo menos para mim, foi um grande benefício em termos de aprender a identificar o que funciona e o que não funciona. A maneira de se fazer uma tomada inteira por causa de uma emoção e outra tomada inteira para explorar outra emoção. Depois, pegamos essas emoções mais puras e as montamos juntas, para criar algo realmente interessante. Isso é muito, muito precioso.
Q: Mas ficou mais fácil ‘soltar as rédeas’ e ser apenas um ator no set?
A: Sim, também é muito bom saber reconhecer a autoridade do diretor. O diretor comanda o navio em uma direção, e eu faço o melhor que posso para atar a minha embarcação à dele. Isso não significa que eu não posso tomar decisões. Posso usar motor ou velas. Basta ir na mesma direção que o diretor. Às vezes, é fácil cair na armadilha de querer desviar e buscar outra direção. Isso não dá certo. O filme é do diretor. Com o David Fincher, é muito fácil eu me prender ao mastro e dizer: ‘Certo, vamos lá’. Na calmaria ou na tempestade, estarei a bordo. Penso que é proveitoso ver o que poderia ser feito também depois de uma atuação, se a gente realmente acredita no diretor.
Q: Como você criou a intimidade necessária com a Rosamund? A plateia tem que acreditar que vocês dois se conhecem muito bem. Mas suponho que vocês não se conheciam antes do filme.
A: Foi difícil conseguir isso com ela, por uma porção de motivos que eu não posso dizer sem revelar a história do filme. Temos que respeitar um certo limite, porque vemos as coisas em flashback e como elas são de verdade. Mas isso foi um problema. Foi difícil, porque a fase de ‘se apaixonar’ ficou muito truncada. Tivemos que realizar muito em pouco tempo, como se abreviássemos. O ritmo de filmagem com o David é intenso, então não temos muito tempo para sentar, conversar, se conhecer de verdade, falar do nosso passado, essas coisas. Estamos lá para trabalhar mesmo. E a Rosamund é meio enigmática, quase inacessível, e até acho que isso foi bom. Existe um certo clima de estranhamento no filme, então acho que isso acabou ajudando. É mais fácil criar sorrisos e entrosamento e fazer coisas típicas de relacionamentos felizes do que acrescentar toques de rancor e indiferença. Aquele ódio… se é que você me entende!