Lúria Rezende
Especial para o Jornal de Brasília
Existe um imaginário popular que representa o negro estereotipado como o subalterno, o empregado ou o favelado. Até pouco tempo atrás, pessoas negras eram escaladas apenas para papéis secundários em novelas e seriados de TV brasileiros. Pequenas conquistas, como a Helena negra Taís Araújo, protagonista da novela do autor Manoel Carlos, a visão preconceituosa ainda permeia a televisão.
O caso de preconceito racial ocorrido na semana passada contra a jornalista Maria Julia Coutinho, que apresenta o tempo no Jornal Nacional, levantou a velha, incansável e infinita discussão sobre o racismo. Na edição do telejornal da última sexta-feira, William Bonner deu à palavra à colega e lamentou o episódio ao vivo. Antes, ele e o resto da equipe do programa lançaram a hashtag #somostodosmaju, que chegou aos trending topics do Twitter e rapidamnte ganhou onipresença na timeline do Facebook.
A comoção entre artistas e personalidades foi expressiva. Em comunicado, a atriz Taís Araújo, símbolo da resistência da inclusão do negro em destaque no meio cênico brasileiro, repudiou o ato contra a jornalista e apoiou a colega de emissora. “Eu, com minha menininha no meu colo, também negra, como eu e como Maria Júlia Coutinho, assistia e assisto à TV com os olhos cheios de esperança, sonhos e desejos. Maju, você me representa muito!”, disse a atriz.
Em 1996, ela interpretou a primeira protagonista negra em uma telenovela brasileira em Xica da Silva, de Walcyr Carrasco, da extinta TV Manchete. Taís Araújo, mãe de João Vicente e Maria Antonia, filhos da artista com o ator Lázaro Ramos, acredita que sua geração sofreu menos que a de Zezé Motta, a Xica da Silva do filme de Cacá Diegues. “Mesmo assim, ainda temos muito a evoluir”, comentou a atriz durante o programa Na Moral, sobre racismo no ano passado.
Estereótipo e vanguarda
Em Brasília, o coletivo Pretas Candangas, formado em setembro de 2011 por jovens mulheres com trajetórias de militância contra o racismo, trabalha com a consciência sobre a ditadura de um padrão de beleza cultural historicamente construído, além de participarem da luta pela igualdade racial em todos os campos da sociedade.
“Em ambos os espaços, na TV e no jornalismo, a gente observa que o Brasil caminha a passos muito lentos na representação da mulher negra na mídia. Sempre tivemos um déficit nessa área, é histórico. Durante, pelo menos dez anos, a televisão tem feito sobreposição com as cotas raciais e atualmente temos mais pessoas negras em lugares de destaque”, explica a integrante do coletivo e jornalista Juliana Cézar Nunes. E completa: “Mesmo assim, as TVs não contribuíram com o debate sobre a inclusão negra no Brasil. Não adianta nada colocar alguém em lugar de evidência em um grande jornal, se nos programas de humor o estereótipo subalterno é ainda mais reforçado”.
90% do elenco negro
A TV Brasil fez história a exibir entre o fim do ano passado e o começo de 2015 a novela africana Windeck – Todos os Tons de Angola. Feito inédito na dramaturgia brasileira, a novela tinha 90% do elenco formado por atores negros. Além disso, também apresentava fortes elementos da cultura africana ao público brasileiro, que pôde conhecer melhor culinária, música e a linguagem de Angola.
Windeck trouxe para o Brasil uma África que nossos clichês não estão acostumados a perceber. Mostra uma Angola rica, moderna, competitiva. A produção foi indicada ao Emmy em 2013.