Lúria Rezende
Especial para o Jornal de Brasília
“Não fosse o amanhã, que dia agitado seria hoje”. Reproduzidas em lugares públicos, geralmente de grande circulação, ao alcance dos olhos de quem usa o transporte público e costuma ser pego de surpresa, as frases grifadas em muros e paredes da cidade trazem breves cápsulas de sabedoria humana ao cotidiano corrido dos grandes centros. A poesia urbana, conceito de arte gravado nas paredes, muros e calçadas – feita por artistas, poetas e coletivos – traz mais leveza à selva de pedra.
Distante da cultura tradicional que imprime páginas de livros, folders, livretos e jornais com poesia, os coletivos se formam para estampar as ruas do DF com palavras carregadas de sentimento humano. O coletivo Transverso, formado pelos poetas Patrícia Bagniewski, Patrícia Del Rey e Cauê Maia, registra desde 2011 seus trabalhos em muros, calçadas e passarelas da cidade.
“Nossa intenção é sair das galerias, democratizar a arte com nosso trabalho nas ruas. Um dos nossos maiores objetivos é inserir os moradores na própria cidade para que eles se sintam pertencentes”, ressalta Patrícia Bagniewski, que também é artista plástica.
Com uma identidade própria, os versos e mensagens do Transverso são grifados por meio de estêncil, disponíveis pelo e-mail coletivotransverso@gmail.com. “Para nós, distribuir essa poesia (que a gente chama de carimbo) é uma forma de inserção”. Hoje, o grupo ultrapassa fronteiras e já tem trabalhos nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Diferentemente do grafite em proposta estética, essa manifestação verbal tem herança forte em ações bem anteriores, como a poesia marginal, e formalmente é uma espécie de filha das gravuras nas artes plásticas (pelo aspecto da reprodução de uma mesma matriz) ou free hand com latas de spray. Dessa forma, a arte urbana ou street art não deixa também de ser um prolongamento natural de trabalhos de décadas passadas – que colocaram na mesma panela o ativismo, arte e poesia, sendo alguns de seus expoentes Cildo Meireles, Juan Brossa, Paulo Bruscky e Hélio Oiticica.
Lobo-guará, Candangos e Instagram
Criado em 2010 por três amigos, o Estúdio Cajuína busca integrar a multiplicidade de linguagens criativas. Formado por Bianca Novais, Rodrigo de Oliveira e Flora Egécia, o grupo trabalha comercialmente com projetos de forma autoral e fotografia. “A nossa intervenção urbana é uma mescla do que fazemos no dia-a-dia”, explica Flora.
A arte que eles imprimem em diversos pontos da cidade é realizada por meio de colagem com pintura e fotografia, que exploram os símbolos da capital e do Brasil como temática central. “Como o Lobo-Guará e os Candangos, por exemplo”, completa a fotógrafa.
Corrente artística
“A gente acha importante ocupar Brasília, levar a própria cidade para os brasilienses de uma forma positiva e fixa”, diz a artista. Para o coletivo, a cidade tem muita poluição visual e o contato com essa arte é um respiro, que pode se propagar e formar uma corrente.
“É incrível quando temos o feedback das pessoas no Instagram, por exemplo. Publicam fotos com nossa arte urbana e sempre deixam uma mensagem carinhosa no post. Acho que, assim, todos ficam felizes”, finaliza Flora.