Dar um novo sentido à vida a partir dos tambores, dos ritmos africanos, do teatro e do cinema. Há dois anos, um projeto social criado em Planaltina procura resgatar, por meio da arte, garotas de programa, algumas ex-moradoras de rua.
Com o apoio da entidade religiosa Maria Padilha, a produtora cultural e ativista Gil Padylha conseguiu reunir meninas em situação de risco e realizar um sonho: o de formar uma banda de mulheres com problemas sociais delicados.
Formada por oito integrantes, todas percussionistas, a banda Filhas de Padylha foi lançada neste ano em um mutirão de rua realizado em maio. A ideia deu tão certo, que as meninas fizeram um belo show na 3ª edição da Parada do Orgulho LGBT de Planaltina. Elas receberam convites para tocar em outros eventos em Brasília e até fora do País, no Peru. Já foram requisitadas para se apresentar em um mutirão na Rodoviária do Plano Piloto até o final do ano e pretendem, ainda, passear e tocar pelas ruas com o grupo.
“Ficamos ansiosas e até com medo da reação do público. Mas as pessoas adoraram. Queremos mostrar para essas meninas que é possível passar por cima de qualquer dificuldade”, frisa a idealizadora da banda, Gil Padylha.
Nos palcos
As oito garotas de Padylha não saíram da prostituição, muitas por própria opção, outras por não terem escolha.
“O projeto (Filhas de Padylha) me acolheu. Antes, eu morava nas ruas. Agora, ganhei um lar e estou adorando tocar percussão, fazer teatro. É uma forma de libertação”, destaca uma das integrantes. Como o assunto é delicado, elas preferem não se identificar pelo nome. As instrumentistas sobem ao palco mascaradas e com batom em vermelho e preto, símbolos das entidades Tranca Ruas e de Padilha.
“A religião nos ajudou e nos ajuda. Consegui já me livrar das drogas com a banda”, comenta uma outra integrante.
A força das batidas contra o preconceito
O som é forte, assim como as performances. Nos tambores, elas improvisam músicas afrobrasileiras e fazem um belo espetáculo cênico. A mistura de ritmos se faz nos toques do surdo, do rebolo, do repique e nas cantorias. O importante para elas é tocar e inovar. Duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos sábados, elas recebem aulas de percussão, teatro e cinema.
“A ideia existe há dois anos, mas não tínhamos apoio. Foi preciso tirar dinheiro do bolso para comprar os instrumentos. Queremos mudar essa ideia preconceituosa sobre prostitutas. Não pretendemos estimulá-las a serem donas de casa. O negócio é fazer arte”, exclama Gil.
Voluntarismo
As aulas são lecionadas no Centro Unificado de Apoio à Cidadania (CUC) de Planaltina, um espaço também fundado pela ativista. O projeto é totalmente gratuito e não tem fins lucrativos.
Professor de percussão do grupo e responsável pelas aulas, o músico Negro Richard resolveu passar para essas meninas um pouco de arte. “Venho por prazer e acho fantástico como as garotas, que antes nem sabiam tocar, hoje tiram o maior som”, elogia Richard.
Saiba mais
Em 2012, a produtora cultural Gil Padylha conheceu meninas que buscavam ajuda na entidade religiosa Maria Padilha, num centro de candomblé da cidade de Planaltina.
Com o convívio com essas garotas, ela sentiu a necessidade de interferir, fazer alguma coisa para uni-las em um bem comum. O laço de amizade estava criado e a ideia também. Fazer arte.
Após anos de estudo e empenho, o grupo Filhas de Padylha foi lançado em 2014. Nesse ano ainda, as meninas pretendem ir às ruas mostrar sua percussão e garra para a população.