Em tempos de alvoroço causado pela “cura gay”, projeto polêmico proposto pelo deputado João Campos (PSDB-GO), e da revelação de Daniela Mercury sobre ter uma namorada, surgem no mundo artístico nomes que não veem problemas em suas orientações sexuais.
Não é novidade ver um rapaz com pinta de galã e cheio de músculos fazendo sucesso na música. Mas quando se descobre que ele canta country, é assumidamente gay e defende a bandeira na letra e no videoclipe da sua primeira música de trabalho, a coisa muda de figura.
O nome do jovem norte-americano é Steve Grand. Seu primeiro hit, All American Boy, atraiu 1,4 milhão de visualizações em menos de uma semana e é dedicado ao público masculino.
Sucesso nacional
Por aqui, a situação não é muito diferente. O Brasil acaba de ganhar a primeira dupla assumidamente lésbica de sertanejo universitário. A carioca Eduarda Maria e a paulistana Aline Criscolim eram amigas de internet quando resolveram cantar juntas. A página da dupla no Facebook rapidamente caiu no gosto dos fãs. Assim surgiu As Bofinhas. “Somos machinhos”, brinca Eduarda, primeira voz da dupla.
As letras são voltadas para o público feminino. Há declarações de amor e faixas mais dançantes, como Mexe Gostoso. O hit da dupla é Saindo do Armário. “Já saímos do armário, mas queremos dar força para quem ainda não teve coragem. Nossa intenção é acabar com o preconceito”, destaca Eduarda.
Prata da casa
A cantora brasiliense Raquel Becker, é lésbica assumida e explica que vê o momento como uma evolução sócio-cultural. “O que precisa de cura é a corrupção e a hipocrisia. Torço para que as pessoas possam conviver de uma forma melhor”, opina.
Funk das garotas da cidade
O sexteto de funk brasiliense Sapabonde também inova ao colocar o universo lésbico no funk. “Vimos que nos tornamos símbolos para as meninas saírem do armário”, conta a integrante Carolina Guimarães. A visão das garotas é positiva, apesar da intolerância existente. “A gente bota a cara para bater. Muita coisa mudou. O Brasil está mais aberto”, explica. Apesar do sucesso, o circuito de apresentações das brasilienses ainda se restringe às casas GLS. “Ainda ficamos apreensivas em tocar em outros lugares”, diz Carol.

Para o deputado federal Jean Wyllys, o impacto da posição da cantora Daniela Mercury é tão positivo e relevante quanto o do músico Rick Martin. “É ótimo quando uma cantora com o prestígio e o talento dela vem a público e diz que tratou todas as suas relações afetivas, homossexuais e heterossexuais, com a mesma naturalidade. Para os gays, mesmo os que não estão em grandes cidades, isso acaba tendo um efeito psicológico que vai além de toda a política do movimento”, conta. Ele lembra ainda que “é muito importante quando alguém como Ricky Martin, Marco Nanini e tantos outros tornam pública a sua vida íntima para defender as liberdades individuais que achávamos que estivessem protegidas pela nossa Constituição Cidadã, promulgada em 1988, mas que, com a tomada da Comissão de Direitos Humanos pelo fundamentalismo religioso, não são favas contadas”.