Há cineastas que envelhecem se tornando mais cautelosos. Pedro Almodóvar, aos 75 anos, decidiu fazer o oposto: voltou à Espanha, voltou ao espanhol e voltou ao mais fundo de si mesmo para fazer talvez o filme mais corajoso de sua carreira. Natal Amargo, que estreia nesta quinta-feira (28) nos cinemas brasileiros após chamar atenção no Festival de Cannes, é um mergulho vertiginoso na própria obsessão criativa e, ao mesmo tempo, uma declaração de amor à arte que não poupa nem o artista.
O ponto de partida parece simples, duas histórias paralelas, dois cineastas em crise. Elsa, vivida por uma magnífica Bárbara Lennie, é uma diretora que trocou o cinema pelo mercado publicitário após não alcançar o sucesso que esperava. Raúl, interpretado com a elegância discreta de Leonardo Sbaraglia, é um realizador consagrado que encontrou um limbo criativo justamente quando o mundo mais o aguardava. Um espelha o outro. Um cria o outro. Ambos são, de formas distintas, o próprio Almodóvar.

A engrenagem do longa é deliberadamente labiríntica, estamos diante de um criador e de sua criatura ao mesmo tempo, num jogo de espelhos que salta entre 2004 e 2026 com uma fluidez que mais seduz do que confunde. Longe de ser um artifício intelectual frio, essa estrutura é a própria substância emocional do longa. A metalinguagem não existe para impressionar, ela existe porque é a única forma honesta de Almodóvar falar sobre o que lhe custa fazer cinema.
Do ponto de vista estético, o diretor não apenas mantém a mão, ele a afina. A direção de arte é de uma generosidade visual desconcertante: garrafas azuis, poltronas amarelas, casacos vermelhos. Cada cor é uma afirmação, cada enquadramento parece ter nascido de um pintor que resolveu fazer cinema por capricho glorioso. Assistir a Natal Amargo é habitar uma série de telas que se renovam e surpreendem em cada corte, criando aquela ânsia característica do cinema almodóvariano, a vontade constante de ver o que vem a seguir.

Almodóvar não está apenas discutindo o fazer artístico em abstrato. Ele está questionando, em voz alta e na tela grande, o custo humano da própria obra. Os personagens admitem que escrevem não porque sabem o que querem dizer, mas porque precisam descobrir. Essa distinção, sutil e brutal ao mesmo tempo, é uma das confissões mais honestas que um grande cineasta já colocou em um roteiro. Criar não como resposta, mas como pergunta: eis o coração do filme.
O que impressiona ainda mais é que Almodóvar faz essa reflexão sem transformá-la em lamento. Há um prazer evidente na construção de cada cena, uma alegria quase transgressiva em ainda estar ali, ainda provocar, ainda incomodar. Quando Raúl se recusa a ceder às pressões do mercado e das plataformas de streaming, não estamos diante de um personagem teimoso. Estamos diante de um manifesto sobre integridade artística que o cinema raramente se permite enunciar com tanta clareza.

Há também nesta produção um humor que só é possível quando o criador não tem mais nada a perder. As falas que Almodóvar coloca na boca de seus personagens soam ao mesmo tempo como provocações e como confissões. Quando a fiel assistente Mônica sugere que Raúl simplesmente descanse sobre os louros conquistados, o filme inteiro respira um frescor ácido que confirma! O diretor espanhol ainda é o mais irônico e preciso observador de si mesmo que o cinema europeu produziu nas últimas décadas.
O elenco é à altura do desafio. Bárbara Lennie entrega uma Elsa de camadas múltiplas, frágil e feroz, engraçada e devastada, confirmando ser uma das grandes atrizes europeias da atualidade. Leonardo Sbaraglia constrói Raúl com uma contenção que diz muito mais do que qualquer explosão dramática. E Patrick Criado, como o bombeiro-stripper Bonifácio, rouba cenas com uma leveza que é a marca registrada dos atores que Almodóvar sabe escolher como ninguém.

A estrutura não linear e os saltos temporais podem, num primeiro momento, exigir atenção do espectador. Mas esse esforço é parte do contrato proposto pelo longa e é um contrato que vale a pena assinar. A recompensa não é a resolução de um enigma, mas a sensação crescente de que estamos diante de algo genuíno: um artista que decidiu, com rara urgência, ser completamente honesto sobre o que é e sobre o que fez de si mesmo ao longo de décadas de criação.
Conclusão
Natal Amargo é o tipo de filme que o cinema precisa mais do que nunca: feito por alguém que conhece profundamente o passado da arte que pratica e que, mesmo assim, insiste em arriscar o presente. Almodóvar não voltou para repetir-se. Voltou para se interrogar. E nessa interrogação aberta, corajosa e esplendorosamente visual, está um dos trabalhos mais significativos de sua trajetória. Amargo no título, generoso na essência.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Pedro Almodóvar;
Roteiro: Pedro Almodóvar;
Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijó, Aitana Sánchez-Gijón, Quim Gutiérrez, Victoria Luengo, Milena Smit, Patrick Criado;
Gênero: Drama, Tragicomédia;
Duração: 111 minutos;
Distribuição: Warner Bros. Pictures;
Classificação indicativa: 18 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z