As cores são a chave, os olhos o machado, a alma é o piano com as cordas”, com essa frase o russo Wassily Kandinsky daria o pontapé inicial para a criação de uma nova linguagem que revolucionaria toda a história da arte no início do século 20. É deste cenário que vem um rico e raro acervo com mais de uma centena de obras e objetos – peças que poderão ser apreciadas de perto. A mostra Kandinsky: Tudo Começa Num Ponto estará em cartaz a partir de amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul).
Artista plástico e professor da vanguardista escola alemã Bauhaus, Kandinsky contestou e criou um novo jeito de pintar. Com as cores e as formas abstracionistas, ele eternizou-se como o pai do abstracionismo expressivo.
A exposição itinerante chega pela primeira vez ao País e irá ainda passar pelos CCBBs do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Brasília foi a escolhida para receber a mostra em primeira mão.
Kandinsky: Tudo Começa Num Ponto tem como base a coleção do Museu Estadual Russo de São Petersburgo e ainda peças de mais sete museus da Rússia e procedentes coleções espalhadas pela Alemanha, Áustria, Inglaterra e França.
O artista introduziu em 1910 os primeiros estudos não-figurativos. O fascínio pelo simbolismo e pela psicologia da cor, a criação de uma proporção geométrica que partia de um ponto e a necessidade de colocar uma temática espiritual em suas obras marcaram as telas e criações desse artista, que eternizou-se com quadros como Murnau – Jardim 1, Grüngasse In Murnau, Fuga, entre outros.
Junto à música
E já que a linguagem era inédita nas artes visuais, ele precisou criar um novo manual. Uma nova gramática para se guiar. Para isso, contou com a influência de um estilo musical que emergia na mesma época: a música dodecafônica de Arnold Schönberg, seu grande amigo. Kandinsky e o músico trocaram correspondências para lá de criativas entre 1911 e 1914.
Outra grande inspiração foi a ópera de Richard Wagner, Lohengrin. Um concerto que ficou marcado pela quebra da melodia e do lirismo tradicional. Eram os sinais para a música atonal e para aquela pintura que quebraria paradigmas.
Outro interesse do artista era a Teosofia. Nesse sentido, foi a teóloga Helena Petrovna Blavatsky que o influenciou. A teoria teosófica defendia a ideia de que o aspecto criativo das formas deveria ser expressado por uma série descendente de círculos, triângulos e quadrados.
Uma guinada para a arte
Kandinsky é natural de Moscou, mas passou parte da sua infância em Odessa, também na Rússia. Voltou para a capital do país para estudar e se formar em Direito e Economia na Universidade de Moscou. mas a pintura falou mais alto e ele desistiu das ciências exatas.
Ao pulsar pela arte, ele se muda para Munique (Alemanha) e inicia seus estudos em pintura.
Nova estética
O sucesso e espírito de renovação levaram o artista a contestar a arte do início do século 20. Afinal, ele preferia pintar paisagens coloridas em vez de modelos “apáticos”, como ele mesmo definia. O resultado: Kandinsky tornou-se conhecido, co-fundou a sociedade artística Phalanx, foi um dos principais expoentes do grupo de artistas expressionistas Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul) e, entre idas e vindas, entre Rússia e Alemanha, enfrentando o socialismo russo e o nazismo alemão, ele para no país alemão e torna-se professor da escola vanguardista Bauhaus. A instituição é derrubada pelo governo nazista em 1933, fato que culminou na sua ida para a França. E foi em Parisa que viveu até o final da vida, em 1944.
Flerte com a espiritualidade
Admiradora das obras, “da cabeça” e de todo o legado que o pintor deixou, Vera Pugliese comenta com propriedade sobre Kandinsky. Formada em Artes Visuais, Filosofia e doutora em História da Arte pela UnB (Universidade de Brasília), Vera ressalta que, além de inventar a linguagem do abstracionismo expressivo e revirar toda a história da arte, o artista brilhava também pela enorme capacidade de relacionar as artes.
O resultado dessa mistura era refletido nas telas e nos retratos. Retratos ainda cheios de espiritualidades. Afinal, o artista valia de seus conceitos espirituais para pintar. Ele lançou o livro Do Espiritual Na Arte, em 1912. “Foi, sem dúvida, um artista à frente do seu tempo. Um vanguardista que aproximou os artistas europeus e que ainda valorizou a minoria, a arte popular, a arte folclórica, o xamanismo e a arte exótica, até então desvalorizada. Ele ainda defendia a enorme relação entre os sons e as cores. Por isso fez essa proximidade com a música”, explica a doutora.
Seleção de obras
Para a exposição, os curadores Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky escolheram objetos e pinturas que abarcassem e adentrassem na densidade do artista. Por isso, serão cinco blocos guiados, divididos por temas, por partes da vida Kandinsky: Kandinsky, As Raízes de Sua Obra e Relação Com a Cultura Popular e o Folclore Russo, Kandinsky e o Universo Espiritual do Xamanismo no Norte da Rússia, Kandinsky na Alemanha e as Experiências no Grupo Der Blaue Reiter, Vida em Murnau, Diálogo entre Música e Pintura: A Amizade entre Kandinsky e Schonberg e , por último, Caminhos Abertos pela Abstração: Kandinsky e seus Contemporâneos. “Seguimos a biografia do artista até sua partida definitiva da Rússia, em 1922, e recorremos às suas memórias, aos artigos e catálogos das exposições organizadas durante sua vida”, pontua a curadora russa Evgenia Petrova.
Abstracionismo para crianças
A programação da mostra vai ainda contemplar as crianças com atividades lúdicas e gratuitas. Destaque para um laboratório de artes visuais que permite identificar as formas e cores que a música pode adquirir. Com um pouco de água, tinta e uma caixa de som, será possível desenhar, viajar e desvendar as imagens criadas pelas vibrações sonoras de uma melodia.
A proposta é adentrar nessa relação entre artes visuais e música, algo tão presente nas obras Kandinsky. Aos sábados e domingos, às 17h. Também aos sábados e domingos, entre 9h e 18h, um laboratório incentivará os pequenos a interagir com cordas e tecidos em diferentes planos.
Já no curso Pequenas Mãos, uma visita guiada levará as crianças a conhecer a lenda de São Jorge, herói presente nas obras de Kandinsky. A atividade acontece sempre aos sábados e domingos, às 14h, e é indicada para crianças entre 3 e 6 anos.
Livro
E já que o momento é de falar de Kandinsky, a escritora carioca e coordenadora do CCBB Educativo, Daniela Schindler, preparou um livro infantil sobre a obra do artista para contar a história do artista desde sua infância. “Queremos aproximar as crianças por meio da literatura e de atividades. É a forma mais fácil de elas terem um pouco de contato com o importante legado de Kandinsky”, afirma.
O livro será distribuído de graça no local para quem participar das atividades. Os cursos serão ministrados até o dia 12 de janeiro, período em que a mostra fica em cartaz.