Pedro Marra
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Desde o lado de fora até entrar no estádio, eles têm apenas um objetivo: torcer pelo time do coração. Mas, assim como exibiu o Jornal de Brasília na última terça-feira (18) – quando mostrou a intolerância que o público LGBT sofre nos campos de pelada –, apoiar o clube que escolheu amar não costuma ser uma tarefa fácil.
A segunda de três reportagens da série mostra que os casos de discriminação são tão ou mais intensos na arquibancada do que nos campos. Agressão por um simples corte de cabelo, bandeira em defesa da causa LGBT queimada e constantes gritos homofóbicos são alguns dos lamentáveis atos praticados nas cadeiras dos estádios.
A fim de dar um basta nessa realidade, pessoas de toda parte do País decidiram criar um ambiente favorável ao público LGBT.
Fundada em 1977 por Volmar Santos, a Coligay, primeira torcida homossexual do Brasil, resistiu nos estádios durante 40 anos. Instigado por jogos desanimados, o empresário gremista, de 69 anos, enxergou a oportunidade de chamar o público da boate gay que era dono para animar as partidas.
Conselheiros do Grêmio auxiliavam nos custos de viagem, ingresso e transporte. Volmar continua indo aos jogos – hoje na moderna Arena do Grêmio – e comemora a importância dos 40 anos de torcida. “A Coligay ajudou muita gente a sair do armário”, diz ele, que confessa ter recebido pedido para voltar com a torcida. “Tudo é muito dispendioso e muito difícil para as pessoas aceitarem a causa.”
A Coligay foi a pioneira ao levar torcedores homossexuais para as arquibancadas, mas depois outras pessoas vieram para defender a causa LGBT. Em Minas Gerais, existe a Galo Queer, do Atlético-MG, e os Raposões Independentes do Cruzeiro. Em Pernambuco, a Timbu Queer representa o Náutico. Há Vitória Livre e EC Bahia Livre, em Salvador. Flamengo Livre e Flagay representam o Rubro-Negro carioca. Gaivotas Fiéis (Corinthians), Palmeiras Livre (Palmeiras), entre outras, ajudam a reforçar o público LGBT nos estádios.
William de Lucca, um dos fundadores do coletivo Palmeiras Livre (criado há 4 anos), admite que já sofreu preconceito. “Fui ao estádio assistir a uma partida pela Taça Libertadores e dois caras gritaram: ‘cabelo de bicha, de veado’. Isso porque eu pinto meu cabelo de azul”, lembra. “Fui ver uma partida contra a Ponte Preta com um ex-namorado, não nos beijamos nem nos abraçamos. A gente foi para lá já sabendo que tinha um certo ‘script’ de comportamento”, diz.
Preconceito em chamas
Uma das representantes da Queerlorado (coletivo de torcedores do Internacional), Letícia Heinzelmann, 34, lembra de um episódio recente num jogo pela Série B. Na ocasião, um amigo levou uma bandeira de arco-íris com o escudo do clube no meio. “Do lado de fora do estádio, estávamos comendo churrasco com a bandeira exposta e outros colorados ficaram com olhares atravessados e palavras chulas”, lembra. Mas quando dois colorados cercaram o grupo nos arredores do estádio… “um membro da torcida organizada tomou a bandeira falando que ali não é lugar de viadagem e cruzou uma rua lá por perto, onde a queimaram”, conta.
Para a psicóloga esportiva Talita Souza, 35 anos, a intolerância aos LGBT’s vem desde a infância. “Não é só na escola. Ocorre também no âmbito familiar”, descreve. “Ninguém é vítima da propagação social do machismo. É um preconceito automático”, analisa ela, que frisa o fato da arquibancada ser um reflexo da sociedade.

Queerloado – arquivo pessoal
Primeira torcida gay do Brasil
A Coligay já esteve presente até em partida de time rival. “Fomos convidados pelo presidente do Corinthians, Vicente Matheus, para comparecer num jogo deles por conta da nossa fama. Muita gente ia aos jogos só para ver a Coligay fazer a festa”, lembra Volmar.
A torcida era conhecida também pela fama de pé quente e a característica não era à toa. Para se ter uma ideia, os coliboys foram assistir à final do Campeonato Paulista quando o alvinegro paulista jogaria contra a Ponte Preta, no estádio do Morumbi, quando foi quebrado um tabu depois de 22 anos sem levantar taças. com um gol salvador de Basílio sobre o time pontepretano.
No Rio Grande do Sul, a Coligay ainda comemoraria as conquistas gremistas de dois Campeonatos Gaúchos, um Brasileiro, uma Libertadores e um Mundial de Clubes, em 1983, ano em que a torcida interrompeu as atividades porque Volmar teve de vir embora para Passo Fundo, (cidade natal) cuidar da mãe e deixou um integrante responsável pela torcida. “Aconteceu que era difícil conseguir patrocínios, a torcida foi diminuindo e o pessoal decidiu por terminar. Foi muito triste para mim”, diz.
Início complicado
Em plena ditadura militar, Volmar conta que a torcida nunca teve problemas com a polícia, mas lembra que bancava aulas de caratê como tática de defesa pessoal para os primeiros 60 integrantes.
“Uma vez, em Passo Fundo, quando a torcida entrou, um torcedor jogou uma laranja na nossa direção. Um dos nossos integrantes foi lá e deu uma surra no cara”, recorda o fundador.
A psicóloga Alessandra Araújo, 41 anos, acredita que não traz solução alguma o público LGBT bater de frente e causar conflito. “Se eles são o que são, para quê fazer com que o outro engula o que eles querem?”, comenta ela, que também é terapeuta sexual e tem muitos pacientes que não conseguem defender os ideais. “Eu digo para eles que da mesma forma que eles exigem respeito, também têm que respeitar”, explica.
Saiba mais
Letícia Heinzaelman, da Queerlorado, acredita que a pessoa não precisa esconder a orientação sexual, mas reconhece a dificuldade para a inserção desse público no futebol. “Acho que hoje a gente está tendo cada vez mais coragem para entrar no estádio, mas ainda tem muito receio em levantar a bandeira LGBT”, diz.
Anos luz do respeito
Motivado por uma agressão de corintianos a um ex-namorado em plena Avenida Paulista, o apresentador de TV, Felipeh Campos, 43 anos, criou a Gaivotas Fiéis, em 2013. “No começo o clima era hostil. Ir aos estádios hoje tornou-se um corredor da morte”, diz. Quando o episódio ocorreu, Felipehpensou de qual forma chamaria a atenção para esse caso sem fazer apologia a um gay que havia sido agredido por uma torcida organizada. Foi então quando teve a ideia de formar uma torcida gay do alvinegro.
“Já fomos ao estádio com 156 torcedores gays. Tivemos que pedir segurança preventiva. Os xingamentos foram horrorosos”. Felipeh diz que já presenciou tudo de mais grosseiro, mas ainda vê a evolução distante da realidade. “Estamos anos luz para conquistar algo de concreto. O público LGBT não precisa ser aceito, precisa ser respeitado como qualquer outro torcedor”, completa.
O corintiano ainda critica os torcedores machistas. “Se eles são tão machos, por que assistem homens de shorts?”, contesta. Felipeh lembra que já tentou se juntar a torcidas rivais. “Queriam nos usar para menosprezar e mostrar que eles são mais homens que nós”.