Perto de completar 50 anos, Zizi Possi refaz sua trajetória: “Me cobrei muito, a vida inteira. Estou tratando tudo com mais humor e menos pressão”. A afirmação não tem a ver apenas com a proximidade de mais uma idade redonda. Recém-saída de uma depressão, que a deixou quatro anos sem gravar, a cantora se diz mudada. Principalmente na carreira, alvo do seu conhecido perfeccionismo.
“Estava com a energia tão baixa que levantar da cama era uma conquista; trabalhei com o que podia”, diz, referindo-se ao CD e DVD ao vivo Para Inglês Ver… e Ouvir, em que regravou de Frank Sinatra a Bob Marley. O projeto, que originalmente não passaria de dois shows, foi apresentado por ela pela primeira vez no Rio de Janeiro, no último fim de semana, no Canecão, iniciando uma turnê nacional. “Cantar é um ato de cura. E sobrevivo do meu trabalho, tanto que não fiquei totalmente reclusa. Fiz alguns shows fechados para empresas”, lembra Zizi. “Sempre me preocupei em ter dinheiro para ficar seis meses parada. Me deprimi, mas não estava burra.”
Para a cantora, falar em depressão é “falar de todo um universo”. “Depressão é quando você não agüenta mais a pressão e entrega os pontos de maneira que, se morrer, não tem a menor emoção”, define ela, que entregou os pontos depois que um dos irmãos ficou entre a vida e a morte. O episódio coincidiu ainda com um desentendimento com a gravadora Universal, que resultou na saída de Zizi da companhia. “Eles foram cínicos comigo”, acusa a cantora, que completa: “Não sou uma pessoa rasa; meu barato é a profundidade. Depressão é como um buraco. Você sai, mas ele continua lá. Qualquer desequilíbrio, até hormonal, te deixa próxima dele”.
Segundo Zizi, as mulheres estão mais sujeitas aos desequilíbrios. “Ser mulher no Brasil, em 2006, e envelhecer, não é fácil. Nossa sociedade é sexista e hedonista”, acusa a cantora, que não cedeu às promessas das plásticas por puro receio. “Morro de medo desses recursos. Botei botox e fiquei com cara de travesti. Ainda bem que era para durar 6 meses e ficou 15 dias. Nem reclamei”, brinca.