A série de pocket book Vozes do golpe reúne quatro relatos – dois ficcionais e dois documentais – sobre experiências ligadas ao golpe de 31 de março de 1964 (ou 1º de abril), que depôs João Goulart e instaurou a ditadura militar no Brasil até 1985 e cujos reflexos estão presentes até hoje na vida de todos os brasileiros.
Em A Revolução dos Caranguejos (depoimento pessoal sobre o golpe de 64), Carlos Heitor Cony relembra sua atuação na imprensa durante o ano do golpe e conta as perseguições que sofreu -tanto do regime militar como de setores da esquerda. O escritor evoca o dia 1º de abril de 1964 e uma caminhada em Copacabana na companhia do poeta Carlos Drummond de Andrade. Desse passeio resultaria a primeira – e ácida – crônica de Cony sobre o golpe. Os textos do escritor no jornal Correio da Manhã motivaram um pedido de prisão e um processo, movidos contra ele pelo então ministro da Guerra. Arthur da Costa e Silva. além de lhe renderem o patrulhamento da ala esquerdista que considerava seus romances e crônicas “alienados”.
ComícioEm Um Voluntário da Pátria, Zuenir Ventura rememora os acontecimentos que precipitaram o golpe militar, como o Comício das Reformas na Central do Brasil, em 13 de março, ao qual compareceram 300 mil pessoas, entre as quais o próprio Zuenir. No dia do golpe, o jornalista estava em Brasília, onde deveria assumir uma cadeira de professor na Escola de Comunicação da UnB. Sua descrição daquele dia é uma crônica preciosa porque inédita: ninguém ainda havia narrado o desenrolar dos fatos em Brasília, fora dos círculos oficiais. Zuenir relembra sua surpresa ao constatar que “pegar em armas” podia ser mais do que uma expressão retórica.
Em Mãe Judia, 1964, Moacyr Scliar cria uma narrativa de ficção sobre o intricado caso psiquiátrico em que um médico recém-formado toma conhecimento do monólogo de uma paciente do hospital em que trabalha. Trata-se de uma senhora judia que enlouqueceu depois do desaparecimento do filho, envolvido com grupos guerrilheiros na Porto Alegre de 1964.
Luiz Fernando Veríssimo compõe em A Mancha uma narrativa de ficção ao mesmo tempo divertida e dolorosa. É a história de Rogério, um homem de meia-idade, ex-prisioneiro do regime militar. Por obra do acaso ele descobre, anos depois, ao ver uma mancha no carpete de um imóvel que pretende comprar, a sala em que havia sido torturado.