Vladimir Carvalho passou por muitas barras pesadas. Militou contra o Golpe de 64, resistiu bravamente à invasão militar na Universidade de Brasília (UnB) em 1968 e se consagrou um dos maiores nomes do cinema-documentário brasileiro no atravessar das décadas – que não foram poucas. Na verdade, hoje completam-se sete dezenas de anos do mestre paraibano radicado em Brasília desde os anos 60.
Vladimir chega aos 70 com os sonhos de jovem cineasta que era ainda quando morava em Campina Grande (porém, nascido em Itabaiana). “Se não sonhar, o ser humano morre”, destaca o cineasta que, há dois anos, mostrou a boa forma de seu cinema com o lançamento do ovacionado Barra 68 – Sem Perder a Ternura. Hoje, Vladimir volta sua angústia de “repórter” da memória do sertão para a literatura. Neste momento, o cineasta finaliza a pesquisa de seu próximo documentário, O Engenho de Zé Lins, sobre a vida e obra de seu conterrâneo José Lins do Rêgo; e anuncia o desejo de produzir um filme sobre o maior literato do cinema brasileiro, Mário Peixoto.
O aniversário do cineasta marca também o lançamento do projeto Vladimir 70 que, durante o mês de abril, leva ao Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e Rio de Janeiro uma mostra cinematográfica de retrospectiva de toda sua obra – com 16 curtas e cinco longas-metragens. Será, segundo o próprio diretor de Conterrâneos Velhos de Guerra, uma abertura no restrito mercado de distribuição de filmes no Brasil. “Somos pouco vistos. Essa é uma forma sábia de receber retorno de crítica do público”, analisa. O título da mostra remete a um de seus primeiros curtas-metragens, Vestibular 70.
Vladimir Carvalho é um artista que, conforme sua definição pessoal, “vê a vida pelo retrovisor”. Como documentarista, sobretudo de fatos históricos, não lhe caberia papel melhor. “Todo filme meu é uma rememoração pessoal. Não foi algo deliberado, um projeto. É algo que coincide estar presente em toda minha filmografia”, descreve o cineasta.
projetos Vladimir Carvalho é um cineasta impaciente. Não gosta de esperar muito para pensar em novos projetos – ou fazer fita, como se diz em sua terra natal. Em constante atividade, Vladimir começa a produção de seu próximo filme no mês que vem. “Após o Carnaval, vou para o Rio de Janeiro adiantar o filme”, adianta. O Engenho de Zé Lins será um longa-metragem numa linha um pouco diferente dos impactantes O País de São Saruê (censurado em 71 e lançado somente 79), Conterrâneos Velhos de Guerra (1991) e Barra 68.
O Engenho…, por se tratar de uma personalidade da literatura brasileira, parece “pegar mais leve”. Ledo engano. Vladimir coloca em questão a figura controversa que fora o romancista paraibano. Lins do Rêgo estudou no mesmo colégio do pai do cineasta. O interesse veio a partir das histórias que seu progenitor lhe contava. “Talvez ninguém imagine, mas ele (Zé Lins) era um sujeito muito polêmico. Era um torcedor do Flamengo que chegou até a brigar na rua pelo seu time”, conta o diretor.
O projeto seguinte, e mais embrionário, é o documentário sobre a vida e obra do cineasta carioca Mário Peixoto. Vladimir só desenvolveu até então o pré-roteiro do documentário, que analisa a vida e a única obra do autor do filme de vanguarda Limite, de 1931. Peixoto teria começado a fazer três filmes que, simplesmente, nunca foram finalizados: Maré Baixa (36), Três Contra o Mundo (38) e Onde a Terra Acaba (40). Este último, viraria o título de um documentário de Sérgio Machado datado de 2001.
homenageadoCertamente, Vladimir Carvalho alcançou uma importância tamanha na história do cinema brasileiro que lhe rende homenagens desde o ano passado. Antes de se pensar na mostra Vladimir 70, a professora e cineasta Dácia Ibiapina produziu o curta-metragem Vladimir Carvalho – Conterrâneo Velho de Guerra. O filme rendeu salvas ao cineasta no 37º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro de 2004.
A exibição da película andecedeu a primeira projeção da cópia restaurada de O País de São Saruê, o primeiro longa de Vladimir. Na homenagem, Vladimir experimentou o outro lado de seu trabalho de documentarista: ser o objeto de estudo, o entrevistado. Há dois anos, quando a admiradora e também nordestina Dácia recebeu em sua aula a visita de Vladimir, veio o desejo de dar maior projeção à figura do documentarista paraibano. Mais do que isso, agraciá-lo por 44 anos de cinema. Parabéns, Vladimir Carvalho.