O relançamento das obras de Autran Dourado pela Editora Rocco está ajudando na redescoberta, pelas gerações mais novas, de um grande autor brasileiro, dono de uma narrativa profundamente humana e consistente que já fizeram a crítica especializada colocá-lo ao lado de mestres como o norte-americano William Faulkner. Tempo de Amar, primeiro romance do mineiro, é já uma mostra sensível da seriedade e talento do escritor.
Publicado originalmente em 1956, o livro foi engendrado por um Autran com apenas 26 anos de idade. Mas, nem por isso, Tempo de Amar é um romance com os defeitos típicos do afogueamento juvenil. Muito pelo contrário, há uma maturidade absurda e um capricho na construção do verbo que surpreendem e encantam.
Percebe-se no livro, que não havia ganho uma reimpressão há décadas, a precocidade inventiva do autor. O texto já começa sem obedecer uma linearidade. A história de Ismael, um “homem cinzento”, como ele mesmo se autoproclama, na primeira parte de três da obra, alterna passado e presente em capítulos curtos e essenciais para entender o restante da obra.
A história do livro é morna, como é a vida do personagem. O descendente de uma família que já foi poderosa naquele interior de Minas. vive errante tentando apagar o trauma do passado, a morte acidental da irmã ursulina, e desejando sair de uma modorra psicológica que ele não encontra forças para vencer.
No universo de Ismael, coisas e pessoas andam em um compasso de morte, como se tudo na vida se encaminhasse para o cadafalso. A casa sombria, a decadente fazenda dos Mamotes, a montanha soberana que cercava a cidade como uma prisão, os antepassados tristes, marcados por feridas morais, tudo serve para que Autran Dourado perpetre um texto denso e claustrofóbico.
O personagem do Ismael é, com certeza, um dos mais bem construídos da literatura nacional brasileira. A sua errância angustiante, o medo de ser feliz, a sua inconformidade pachorrenta são delineados pelo autor com maestria e riqueza psicológica.
Tempo de Amar é um romance denso de um artesão das letras que soube tirar de seu cotidiano e das paisagens mineiras histórias universais e atemporais. Retratos de um cotidiano que vive sob o peso de tradições e de dores secretas. Un livro belo e dolorido.