Depois de abrir as portas de Hollywood com o sucesso de Central do Brasil no exterior, em 1999, o cineasta carioca Walter Salles engrenou o projeto multinacional Diários de Motocicleta, cujo desempenho lá fora também foi dos melhores – a saber pelas indicações ao Oscar, prêmios recebidos e a força da temática: os anos pré-revolucionários do argentino Ernesto Guevara, o Che. Agora, Salles encara sua primeira prova de fogo na terra do Tio Sam com Água Negra, refilmagem do thriller de terror japonês Honogurai Mizu no Soko Kara, que estréia hoje nos cinemas da cidade.
Para o remake da obra originalmente assinada por Hideo Nakata (criador de O Chamado e O Chamado 2), o experiente Salles se submete a ser avaliado como estreante pelos olhos da indústria cinematográfica de Hollywood (responsável por projetar ao estrelato ou destronar seus operários). O tema não condiz com o repertório desenvolvido por Salles em sua filmografia autoral. Aqui, Salles é mais um componente técnico para uma obra alheia. Cabia a ele apenas redesenhar o ambiente sujo e macabro de forma mais elegante, porém, não menos sombria do que a obra original, que narra o insólito drama de mãe e filha num apartamento acometido de inexplicável infiltração de uma água suja.
A mãe, Dhallia (papel da competente Jennifer Connelly, de Réquiem Para um Sonho, Hulk e Uma Mente Brilhante), está em processo de separação do marido e sofre de agudas crises de enxaqueca. A filha, Ceci (com boa performance da atriz mirim Ariel Gabe), cria uma suposta amiga imaginária – talvez relacionada ao misterioso desaparecimento da família que morava no apartamento de onde escorre a tal água.
O enredo se mune de uma tensão permanente que, raramente, encerra com bons sustos – herança do recente cinema sobrenatural nipônico dos antecessores de Nakata, Takashi Miike e Kiyoshi Kurosawa. Até o desfecho fulminante da trama, a narrativa segue lenta – um pouco mais do que o necessário – e faz um meio-campo entre o brilhantismo de O Chamado e o fracasso de O Grito.
O filme estreou há duas semanas nos EUA e seu rendimento por lá ficou dentro da média de produções de médio porte, com um faturamento, até agora, de US$ 24,8 milhões. A aposta agora é do sucesso comercial também por aqui, já que o diretor contou com a empatia do público brasileiro nas suas duas últimas produções.