Chega de sertão, favela ou comédia romântica. O filme brasileiro Nina, em cartaz na cidade desde ontem, vem com uma nova proposta visual, com forte presença do expressionismo alemão e das perguntas para lá de estranhas do nosso subconsciente. Dirigido pelo pernambucano Heitor Dhalia, de 34 anos, o trabalho é inspirado livremente na obra-prima Crime e Castigo, do autor russo Dostoiévski. “Nós fazemos uma paráfrase desta bela obra. E a aceitação do público foi maior do que o esperado”, afirma Dhalia.
O filme, orçado em R$ 2 milhões e 400 mil, retrata de maneira humana e frenética a cultura urbana nos dias de hoje. Nina, um nome russo e universal, é uma jovem desempregada em busca da sobrevivência. Morando de aluguel no apartamento de uma senhora mesquinha, Dona Eulália (Myrian Muniz), a garota moderna, talentosa, inteligente e apaixonada por quadrinhos entra em desequilíbrio e acaba se envolvendo em um crime.
A crise financeira da protagonista é tão grande que uma suposta amiga propõe a prostituição como saída. Sem dinheiro até para comer, a jovem chega a comer a ração do gato. Outras cenas mais polêmicas também envolvem beijos entre mulheres e sexo.
Entre tantas novidades do filme, Nina marcou a estréia como protagonista de Guta Stresser, a Bebel do seriado A Grande Família, da TV Globo. Em entrevista ao Jornal de Brasília, a atriz relatou a experiência de fazer uma personagem que não faz questão de agradar. “Foi um trabalho muito difícil, porque a personagem é muito triste e monocromática”, conta Stresser.
Na opinião dela, as personagens Bebel e Nina jamais seriam amigas. “Elas são completamente diferentes, de mundos muito distintos”, diz.
Outro destaque da história são as ilustrações do escritor e autor de quadrinhos Lourenço Mutarelli. Os desenhos traduzem a alma da personagem principal, mostrando com simpatia, dor e humor a complexidade da vida dos muitos miseráveis espalhados pela cidade paulista.
Apesar de o filme estar centrado em Nina, outros grandes nomes do cinema fizeram pequenas cenas, como Wagner Moura, Renata Sorrah, Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele.
Nina foi exibido no Festival do Rio 2004 e também na 28º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Além de Brasília, o filme está em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte.
Em relação aos novos projetos, o diretor pretende fazer ano que vem a comédia regada a humor negro O Cheiro do Ralo. Já a protagonista está gravando o filme A Grande Família, que vai estrear em 2005, e Deserto Feliz, de Paulo Caldas.
Prêmios Antes de entrar em cartaz no Brasil, Nina foi exibido em vários países da Europa e foi destaque em festivais. Ganhou o Prêmio da Crítica na Rússia, ficou entre os cinco melhores filmes no Festival em Roterdã, Holanda, faturou a melhor direção em Nova York e também melhor fotografia no Peru, entre outros.
De acordo com Dhalia, o retorno já começou, uma vez que o filme já ganhou o respeito fora do País. “É muito bom saber que, de uma forma ou de outra, Nina incomoda as pessoas e elas reagem de maneiras completamente diferentes”, afirma.