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Ultraviolência regada a soul

Arquivo Geral

24/11/2003 0h00

Depois do turbilhão de experimentos cinematográficos de Rogério Sganzerla (O Signo do Caos) e Julio Bressane (Filme de Amor), o cineasta Carlos Reichenbach – cria da mesma safra de ambos – segue um caminho diferente e prima por uma história linear com excessivas cenas de violência em Garotas do ABC (Aurélia Schwarzenega). O roteiro mais tradicional, entretanto, não impediu o diretor de inserir doses de nonsense à obra – como a explosão de um monolito com o símbolo do integralismo (uma metáfora utilizada pelo diretor para a provável morte do dr. Amnésio, personagem de Selton Mello). A interessante abordagem do racismo, com um quê de teorias integralistas, é narrada por meio de ultraviolência (termo utilizado sabiamente por Stanley Kubrick para definir as atitudes criminosas dos jovens de classe média em Laranja Mecânica), regada à soul music de um fictício contemporâneo de Marvin Gaye, paradoxalmente chamado de Sam Ray. O enredo ganha força por meio das problemáticas relações da bela Aurélia (uma mulata suburbana) com o namorado Fábio e o pai militar. Simultaneamente, começa uma guerra de cor liderada pelo grupo fascista do mauricinho S (Selton Mello, num papel pouco expressivo mas bem-trabalhado). A história se dilui com seqüenciais e sangrentas brigas e cenas exdrúxulas à la Boca do Lixo, como a tara de um motoqueiro barbudo (também fascista) por uma velha prostituta alcoólatra. Alguns pecados de Reichenbach, no entanto, são redimidos pela boa fotografia e pelo criativo trabalho de câmera. Grata surpresa é a pequena, porém contundente participação de Fafá de Belém, no papel de uma cantora de casa noturna. Surpreende o espectador ao interpretar Olhos Coloridos, de Sandra de Sá, com trejeitos vocais black e o indispensável suingue incomuns ao seu estilo popular cru. Apesar da falta de amarração da trama, Garotas do ABC passou fácil pelo crivo do júri popular, que parece estar dividido tão somente entre o filme de Reichenbach e o documentário de Sílvio Tendler, Glauber o Filme, Labirinto do Brasil. Portanto, ainda é cedo para definir. O “cinemanovista” de Maurice Capovilla ainda pode surpreender hoje com o drama Harmada, inspirado na obra de João Gilberto Noll.

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