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Últimos dias para conhecer Renato Russo

Arquivo Geral

20/05/2004 0h00

Renato Russo foi batizado no dia 6 de novembro de 1960, na Matriz de São Sebastião, no Rio de Janeiro, oito meses após seu nascimento, em 27 de março daquele ano. Mas não ficou católico. Era espiritualista, adorava São Francisco de Assis e tinha no filme Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zefirelli (1972), uma das fitas de sua maior predileção. Lia sobre budismo, espiritismo, a Bíblia e citava Jesus Cristo como um exemplo a ser seguido. Em 1970, recebeu o primeiro prêmio de sua vida: primeiro lugar da turma no curso de inglês que freqüentava na Sociedade Cultura Inglesa.

Até se tornar o líder da maior banda de rock da história do Brasil, com mais de 16 milhões de discos vendidos, Renato Manfredini Júnior sonhou em ser cineasta, escritor, poeta, roqueiro. Seus sonhos juvenis idealizavam bandas, gravadoras e produtoras de cinema, sempre com Eric Russel (seu alter ego) ao lado de gente como Jeff Back, por exemplo. Como todo grande mito, Renato vaticinava seu futuro.

Passeando pela exposição Renato Russo Manfredini Júnior, que se encerra no próximo domingo, dia 23, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o brasiliense poderá conhecer parte da intimidade do astro pop que mais projetou Brasília. E todas as faces dessa história estão lá, seja ao lado dos amigos Capital Inicial, Plebe Rude, Nicolas Behr e Banda 69, seja nas páginas de jornais que registraram a derradeira passagem da Legião Urbana por Brasília, em 18 de junho de 1988, num show-catástrofe no Estádio Mané Garrincha, onde, entre mortos e feridos, perderam todos.

Mais de 26 mil pessoas já foram ao CCBB conhecer um pouco mais da vida de Renato Russo. Quase dez mil assinaram o livro de presença. Os números superam a mostra de Rembrandt e só são inferiores à exposição sobre a África.

Renato era tímido, inseguro – costumava mostrar aos amigos letras e idéias de música, mais os textos do que as harmonias, quando não tinha certeza se estavam boas. Como bom autor, não se rendia à primeira inspiração. Burilava tudo até encontrar o texto final – mania de jornalista, cuja faculdade fez no Ceub.

Renato Manfredini Júnior começou a estudar no Rio de Janeiro, onde cursou o primário, no Colégio Olavo Bilac. Foi para os Estados Unidos, quando o pai, funcionário do Banco do Brasil, passou uma temporada atuando por lá. Quando voltou, veio para Brasília e fez seu ginásio no Marista. Na exposição do CCBB está o boletim da 8ª Série, Turma D, número 18 da chamada (naquela época, as turmas tinham, em média, 25 alunos). As medalhas da Cultura Inglesa, onde ele chegou a lecionar mais tarde, também estão em exibição, juntamente com vários objetos pessoais do cantor, que na época da faculdade integrou a trupe de poetas do Ceub.

A cabeça de Renato era um caleidoscópio. Milhões de idéias povoavam seu processo criativo. Ele ouvia de tudo: Beatles, Beach Boys, Bob Dylan, Joni Mitchell, David Bowie, Rolling Stones. Era fã de ópera – chegou a idealizar um projeto com o maestro Sílvio Barbato – e tinha paixão por duas grandes damas do jazz e do blues: Billie Holliday e Alberta Hunter. Em sua coleção de discos havia um compacto original da RCA Vitor com Elvis Presley cantando Jailhouse Rock, em dois minutos e dez segundos. Ravi Shankar também tinha seu lugar na discoteca do legionário Renato Russo. Ao lado de uma caixa com CDs do famoso harpista indiano, que é pai da cantora Norah Jones, aparecem discos de folk music (a música tradicional norte-americana que permeia a obra da Legião Urbana).

Renato lia muito. Balzac, Garcia Lorca, James Joyce, a Bíblia e muita biografia (Greta Garbo, Renoir, Bette Davis), além de obras do mestre do suspense Stephen King, compunham uma rica biblioteca no apartamento do artista, na Rua Nascimento e Silva – a mesma onde morava Tom Jobim – , no bairro de Ipanema, no Rio.

O líder da Legião Urbana também desenhava e entre seus traços crus, a lápis, identifica-se John Lennon, Jesse James e Jesus Cristo.

Seu primeiro sucesso gravado em disco, Química – uma matéria em que ele tinha dificuldades –, começou a ser escrito em 1977. Foi gravado no primeiro disco dos Paralamas do Sucesso, Cinema Mudo, em 1983. A evolução da letra, um questionamento ácido da sociedade brasileira, está na primeira parte da exposição, bem ao lado de uma montagem fotográfica sobre os Concertos Cabeças, evento que abria espaço para artistas da cidade, no início dos anos 80, mas que nunca convidou nem Renato Russo nem a Legião Urbana. E essa era uma das maiores mágoas do cantor para com a cidade.

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    20/05/2004 0h00

    Renato Russo foi batizado no dia 6 de novembro de 1960, na Matriz de São Sebastião, no Rio de Janeiro, oito meses após seu nascimento, em 27 de março daquele ano. Mas não ficou católico. Era espiritualista, adorava São Francisco de Assis e tinha no filme Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zefirelli (1972), uma das fitas de sua maior predileção. Lia sobre budismo, espiritismo, a Bíblia e citava Jesus Cristo como um exemplo a ser seguido. Em 1970, recebeu o primeiro prêmio de sua vida: primeiro lugar da turma no curso de inglês que freqüentava na Sociedade Cultura Inglesa.

    Até se tornar o líder da maior banda de rock da história do Brasil, com mais de 16 milhões de discos vendidos, Renato Manfredini Júnior sonhou em ser cineasta, escritor, poeta, roqueiro. Seus sonhos juvenis idealizavam bandas, gravadoras e produtoras de cinema, sempre com Eric Russel (seu alter ego) ao lado de gente como Jeff Back, por exemplo. Como todo grande mito, Renato vaticinava seu futuro.

    Passeando pela exposição Renato Russo Manfredini Júnior, que se encerra no próximo domingo, dia 23, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o brasiliense poderá conhecer parte da intimidade do astro pop que mais projetou Brasília. E todas as faces dessa história estão lá, seja ao lado dos amigos Capital Inicial, Plebe Rude, Nicolas Behr e Banda 69, seja nas páginas de jornais que registraram a derradeira passagem da Legião Urbana por Brasília, em 18 de junho de 1988, num show-catástrofe no Estádio Mané Garrincha, onde, entre mortos e feridos, perderam todos.

    Mais de 26 mil pessoas já foram ao CCBB conhecer um pouco mais da vida de Renato Russo. Quase dez mil assinaram o livro de presença. Os números superam a mostra de Rembrandt e só são inferiores à exposição sobre a África.

    Renato era tímido, inseguro – costumava mostrar aos amigos letras e idéias de música, mais os textos do que as harmonias, quando não tinha certeza se estavam boas. Como bom autor, não se rendia à primeira inspiração. Burilava tudo até encontrar o texto final – mania de jornalista, cuja faculdade fez no Ceub.

    Renato Manfredini Júnior começou a estudar no Rio de Janeiro, onde cursou o primário, no Colégio Olavo Bilac. Foi para os Estados Unidos, quando o pai, funcionário do Banco do Brasil, passou uma temporada atuando por lá. Quando voltou, veio para Brasília e fez seu ginásio no Marista. Na exposição do CCBB está o boletim da 8ª Série, Turma D, número 18 da chamada (naquela época, as turmas tinham, em média, 25 alunos). As medalhas da Cultura Inglesa, onde ele chegou a lecionar mais tarde, também estão em exibição, juntamente com vários objetos pessoais do cantor, que na época da faculdade integrou a trupe de poetas do Ceub.

    A cabeça de Renato era um caleidoscópio. Milhões de idéias povoavam seu processo criativo. Ele ouvia de tudo: Beatles, Beach Boys, Bob Dylan, Joni Mitchell, David Bowie, Rolling Stones. Era fã de ópera – chegou a idealizar um projeto com o maestro Sílvio Barbato – e tinha paixão por duas grandes damas do jazz e do blues: Billie Holliday e Alberta Hunter. Em sua coleção de discos havia um compacto original da RCA Vitor com Elvis Presley cantando Jailhouse Rock, em dois minutos e dez segundos. Ravi Shankar também tinha seu lugar na discoteca do legionário Renato Russo. Ao lado de uma caixa com CDs do famoso harpista indiano, que é pai da cantora Norah Jones, aparecem discos de folk music (a música tradicional norte-americana que permeia a obra da Legião Urbana).

    Renato lia muito. Balzac, Garcia Lorca, James Joyce, a Bíblia e muita biografia (Greta Garbo, Renoir, Bette Davis), além de obras do mestre do suspense Stephen King, compunham uma rica biblioteca no apartamento do artista, na Rua Nascimento e Silva – a mesma onde morava Tom Jobim – , no bairro de Ipanema, no Rio.

    O líder da Legião Urbana também desenhava e entre seus traços crus, a lápis, identifica-se John Lennon, Jesse James e Jesus Cristo.

    Seu primeiro sucesso gravado em disco, Química – uma matéria em que ele tinha dificuldades –, começou a ser escrito em 1977. Foi gravado no primeiro disco dos Paralamas do Sucesso, Cinema Mudo, em 1983. A evolução da letra, um questionamento ácido da sociedade brasileira, está na primeira parte da exposição, bem ao lado de uma montagem fotográfica sobre os Concertos Cabeças, evento que abria espaço para artistas da cidade, no início dos anos 80, mas que nunca convidou nem Renato Russo nem a Legião Urbana. E essa era uma das maiores mágoas do cantor para com a cidade.

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