Uma personagem sem nome, uma confusão de sentimentos e uma descrição excessiva de uma casa rural portuguesa. Os primeiros capítulos do romance A Manta do Soldado, da autora portuguesa Lidia Jorge, convidam o leitor ao tédio.
Mas a leitura dos acordes seguintes redime a trama inicial e acabam transformando o livro em uma sinfonia agradável. A história, que se passa em Valmares, no Algarves, Sul de Portugal, narra o reencontro de uma menina e seu tio, Walter Dias, que é na verdade seu pai biológico.
Uma confusão temporal, feita de vaivém no tempo, apresenta a família Dias, que tem como patriarca Francisco Dias. Como se vivesse com direitos medievais sobre seus descendentes (mais especificamente sobre seu filho coxo Custódio, Walter e Maria Ema), ele decide todo o destino dos atores.
Custódio, o mais velho dos irmãos, é obrigado a se casar com Maria Ema, grávida de Walter, para salvar a honra da família. Walter rebela-se contra a casa de Valmares e todo o autoritarismo e moralismo que ela representa, mas carrega consigo culpa e solidão.
Como o trenó rosebud de cidadão Kane, de Orson Welles, a manta de caserna com as inscrições, pertence ao recruta 687 de 45, deixada por Walter, é um elo com o passado e com a saudade para a filha-sobrinha. Assim como a manta, todo o enredo é costurado com silêncios, culpas, purgações e espiações que perdoam os pecados e condenam ao mesmo tempo os personagens de uma tragédia familiar.