Gilberto Gil teve que comprar duas malas para acomodar os presentes que ganhou em sua última viagem, mês passado, a Fortaleza. Na bagagem estavam pacotes de comida macrobiótica, fitas cassetes e CDs dados por cantores desconhecidos, letras de música oferecidas por compositores anônimos e muita papelada, em geral projetos à espera de patrocínio.
Tem sido assim em todo lugar. A antiga tietagem ao músico agora é acompanhada de pedidos ao ministro. Na segunda-feira passada, no Rio de Janeiro, o presente mais inusitado era uma pesada escultura de mármore, que faria a bursite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva piorar.
Exatos cem dias depois de tomar posse, Gilberto Gil está à vontade no papel de ministro da Cultura. “Foram os cem dias mais eletrizantes da minha vida”, resume.
Gil acostumou-se facilmente aos rituais do cargo. Diverte-se ao ser chamado de “ilustríssimo senhor doutor ministro” e não reclama de viver de terno e gravata (“Em geral, estou em ambientes refrigerados e eles me agasalham”). Não se queixa dos tapinhas nas costas e atende todos os pedidos de fotografia. Na conversa com o presidente do Banco Interamericano, bastou o encontro terminar para o executivo tirar do bolso o CD Kaya N’ Gan Daya e pedir ao cantor um autógrafo.
No meio de tanto assédio, Gil encontra tempo para trabalhar. Pula de um compromisso a outro, como na viagem ao Rio, onde participou de encontros com empresários na Associação Comercial, com músicos na Biblioteca Nacional e com artistas no prédio do Ministério da Educação. Foram nove horas ininterruptas de conversa. É tanta reunião que seria o caso de perguntar pelos resultados.
Calma, pede Gil. Ele explica que os cem primeiros dias de governo têm servido para arrumar a casa, tomar pé da situação e se familiarizar com “os grandes problemas estruturais” que encontrou. O principal trabalho feito nestes três meses foi a reestruturação completa do organograma do Ministério da Cultura (MinC), já aprovada pelo Ministério do Planejamento. O assunto está na Casa Civil e, em breve, deverá ser alvo de um decreto do presidente Lula. A idéia da reforma é dar mais agilidade ao ministéri