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Tambor de rebeldia

Arquivo Geral

28/11/2005 0h00

Eu Me Lembro: hippies que viveram a infância nos anos 50 e a juventude nos 70

Guilherme Lobão

Em meados dos anos 90, corria que o cineasta baiano Edgard Navarro (de Alice no País das Mil Novilhas e O Rei do Cagaço) voltava a fazer barulho. Coincidiu com o momento da retomada do cinema brasileiro, por volta de 1994, quando Navarro concluía Talento Demais, uma sátira registrada em vídeo sobre a escassa produção cinematográfica baiana. “Ia largar o cinema. Vi que a coisa estava ficando difícil. Houve a retomada, mas na Bahia a gente só foi engrenar dez anos depois”, recorda. E, “engrenado”, Navarro realmente faz barulho. E faz com seu “tambor de rebeldia”, representado no 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro pelo longa-metragem Eu Me Lembro, atração de hoje, último dia da mostra competitiva.

“É um filme sobre a memória da minha geração, que viveu a infância em meados dos anos 50 e a juventude nos 70. Fala de um personagem que seria uma projeção de mim, mas não tem essa característica autobiográfica”, define Navarro. A produção, segundo ele, carrega a cicatriz da Ditadura Militar. “O filme traz um tambor de rebeldia, que dá conta da virada da década de 60 para 70. Tivemos de tomar uma decisão importante de costumes ali: ou entrava para o sistema ou fazia a luta armada. A outra opção era o desbunde. Eu desbundei”, brinca.

O diretor já foi duas vezes agraciado com o Candango de melhor curta-metragem no Festival de Brasília, consecutivamente, em 1985 (com Porta de Fogo) e 86 (com Linz e Katazan). O ofício de fazer longa-metragem, para Navarro, é lucro. “O longa é um marco. Se der para continuar, as pessoas quiserem ver e houver recursos, eu continuo. Se isso não existe, apenas me recolho”, conforma-se.

fellini Eu me lembro, frase que traduzida para o dialeto italiano da região de Emilia Romagna é pronunciada Amarcord, tem propositalmente o acento do mestre Federico Fellini, autor da obra homônima ganhadora do Oscar em 1973. “É uma relação complexa. Posso dizer que tem pontos de contato com o cinema felliniano”.

Navarro previne o espectador de que não há, necessariamente, uma linha semelhante à seguida pelo cineasta italiano em seu clássico. O ponto de partida é o mesmo, depois os caminhos dificilmente se cruzam. “Fellini talvez seja muito mais lúdico e permaneça no lúdico. Eu começo no lúdico, mas parto para o trágico”, pondera. “Desde criança, tenho o sentido do trágico muito presente, um feeling para a dor de existir que sempre me tocou de perto”, emenda.

rebeldeEdgar Navarro faz jus ainda hoje à imagem de iconoclasta conferida a ele nos anos 70. A tragédia a qual ele se refere é ligada ao humor e ao riso satírico. “Não saí da adolescência. Sou muito rebelde. Quando essa rebeldia coincide com o AI-5, a ditadura e essa obrigação de tomar posição, se produz uma reação exagerada da perda da inocência”, explica.

Daí a trama partir de um personagem infantil. É uma criança mítica, que traz em si a tragédia desde o início e até a vida adulta. Segundo Navarro, o público jovem do festival não terá problemas em captar a mensagem do filme, devido à forte relação com o período histórico no qual se passa. “Quando coloco uma criança no filme, seja em qual década for, você consegue se transportar para o ser criança. A infância é um momento eterno”, justifica.

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    Guilherme Lobão

    Em meados dos anos 90, corria que o cineasta baiano Edgard Navarro (de Alice no País das Mil Novilhas e O Rei do Cagaço) voltava a fazer barulho. Coincidiu com o momento da retomada do cinema brasileiro, por volta de 1994, quando Navarro concluía Talento Demais, uma sátira registrada em vídeo sobre a escassa produção cinematográfica baiana. “Ia largar o cinema. Vi que a coisa estava ficando difícil. Houve a retomada, mas na Bahia a gente só foi engrenar dez anos depois”, recorda. E, “engrenado”, Navarro realmente faz barulho. E faz com seu “tambor de rebeldia”, representado no 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro pelo longa-metragem Eu Me Lembro, atração de hoje, último dia da mostra competitiva.

    “É um filme sobre a memória da minha geração, que viveu a infância em meados dos anos 50 e a juventude nos 70. Fala de um personagem que seria uma projeção de mim, mas não tem essa característica autobiográfica”, define Navarro. A produção, segundo ele, carrega a cicatriz da Ditadura Militar. “O filme traz um tambor de rebeldia, que dá conta da virada da década de 60 para 70. Tivemos de tomar uma decisão importante de costumes ali: ou entrava para o sistema ou fazia a luta armada. A outra opção era o desbunde. Eu desbundei”, brinca.

    O diretor já foi duas vezes agraciado com o Candango de melhor curta-metragem no Festival de Brasília, consecutivamente, em 1985 (com Porta de Fogo) e 86 (com Linz e Katazan). O ofício de fazer longa-metragem, para Navarro, é lucro. “O longa é um marco. Se der para continuar, as pessoas quiserem ver e houver recursos, eu continuo. Se isso não existe, apenas me recolho”, conforma-se.

    fellini Eu me lembro, frase que traduzida para o dialeto italiano da região de Emilia Romagna é pronunciada Amarcord, tem propositalmente o acento do mestre Federico Fellini, autor da obra homônima ganhadora do Oscar em 1973. “É uma relação complexa. Posso dizer que tem pontos de contato com o cinema felliniano”.

    Navarro previne o espectador de que não há, necessariamente, uma linha semelhante à seguida pelo cineasta italiano em seu clássico. O ponto de partida é o mesmo, depois os caminhos dificilmente se cruzam. “Fellini talvez seja muito mais lúdico e permaneça no lúdico. Eu começo no lúdico, mas parto para o trágico”, pondera. “Desde criança, tenho o sentido do trágico muito presente, um feeling para a dor de existir que sempre me tocou de perto”, emenda.

    rebeldeEdgar Navarro faz jus ainda hoje à imagem de iconoclasta conferida a ele nos anos 70. A tragédia a qual ele se refere é ligada ao humor e ao riso satírico. “Não saí da adolescência. Sou muito rebelde. Quando essa rebeldia coincide com o AI-5, a ditadura e essa obrigação de tomar posição, se produz uma reação exagerada da perda da inocência”, explica.

    Daí a trama partir de um personagem infantil. É uma criança mítica, que traz em si a tragédia desde o início e até a vida adulta. Segundo Navarro, o público jovem do festival não terá problemas em captar a mensagem do filme, devido à forte relação com o período histórico no qual se passa. “Quando coloco uma criança no filme, seja em qual década for, você consegue se transportar para o ser criança. A infância é um momento eterno”, justifica.

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