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Suspiros poéticos e saudades

Arquivo Geral

07/10/2004 0h00

O sertão nordestino, assim como as ruas estreitas de Veneza, vira cenário para um espetáculo lírico, distante da tradição européia e imerso na música popular brasileira. O formato de ópera ganha um novo sabor no espetáculo A Carta, concebido pelo compositor baiano Elomar, ex-parceiro da turma do projeto Cantoria (ao lado de Xangai e Vital Farias).

Elomar – que nos anos 70 integrou o mesmo rol dos malditos da MPB de Jorge Mautner, Tom Zé, Jards Macalé e Sérgio Sampaio – sempre nadou contra a correnteza de tudo que era pop. Foi por opção que se tornou um “maldito”. “Eu sou marginal porque assim escolhi. Já nasci antisistêmico. Desde garoto quiseram me colocar nessa enxurrada do sistema. Preferi ficar assistindo a cachoeira cair”, diz.

A música de Elomar, muitas vezes mal-compreendida, sempre encontrou o perfeito eqüilíbrio entre o erudito (da formação do compositor) e o popular (de sua própria criação no interior da Bahia). A Carta representa o mais recente interesse de Elomar: anular-se como artista dos palcos e reservar-se tão-somente ao mérito da criação.

“Me sinto completamente deslocado dentro deste mundo. Sei que nunca conseguirei me adaptar à sociedade. Costumo dizer que desci na estação errada”, declara. O músico, contudo, acredita num propósito para sua existência: “Uma vez que fui dotado de talento, tenho o dever de fazer uma obra em atenção à Deus e a meu semelhante, que é o público”.

Além desse espetáculo, dirigido por André Paes Leme e regido pelo maestro Henrique Morelenbaum, Elomar contabiliza um portifólio de dez óperas escritas. Mas ele mesmo nunca se interessou por assistir óperas. “Há uns dez anos assisti à primeira ópera. Tenho formação musical européia, mas dei as costas aos estrangeiros e me voltei à latinidade”, detalha. “Todo meu cancioneiro tem o cunho sertanejo e as cores tão-somente do Brasil”, acrescenta o autor.

enredo Como o próprio Elomar define, A Carta é a história de uma mulher qualquer em qualquer nação que coincidiu em se chamar Maria e nascer no sertão nordestino. A história da garota, de 18 anos, é transferida para o centro de São Paulo. Lá, Maria trabalha numa fábrica e se corresponde com seu noivo, um vaqueiro do interior da Bahia.

A personagem conhece seu infortúnio quando é seqüestrada e seduzida pelo filho “pleibói” do patrão. Maria entrega-se às drogas oferecidas pelo rapaz e chega ao fundo do poço, desolada e arrependida de, um dia, ter abandonado o sertão. “Desde que existe gente, debaixo desse sol e dessa lua, existe a pressão do grande sobre o pequeno”, relata Elomar. A montagem é narrada a partir de uma carta que Maria escreve para sua mãe, na qual derrama lágrimas de saudades do Nordeste.

Na pele da protagonista, estão as cantoras líricas Carolina Faria e Paloma Godoy. O elenco se completa com Sylvia Salustti, Gilberto Chaves, Marcelo Sáder, Marina Considera e Jorge Matias. Todos eles, cantores líricos de prestígio no meio acadêmico do eixo Rio-São Paulo.

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    Elomar – que nos anos 70 integrou o mesmo rol dos malditos da MPB de Jorge Mautner, Tom Zé, Jards Macalé e Sérgio Sampaio – sempre nadou contra a correnteza de tudo que era pop. Foi por opção que se tornou um “maldito”. “Eu sou marginal porque assim escolhi. Já nasci antisistêmico. Desde garoto quiseram me colocar nessa enxurrada do sistema. Preferi ficar assistindo a cachoeira cair”, diz.

    A música de Elomar, muitas vezes mal-compreendida, sempre encontrou o perfeito eqüilíbrio entre o erudito (da formação do compositor) e o popular (de sua própria criação no interior da Bahia). A Carta representa o mais recente interesse de Elomar: anular-se como artista dos palcos e reservar-se tão-somente ao mérito da criação.

    “Me sinto completamente deslocado dentro deste mundo. Sei que nunca conseguirei me adaptar à sociedade. Costumo dizer que desci na estação errada”, declara. O músico, contudo, acredita num propósito para sua existência: “Uma vez que fui dotado de talento, tenho o dever de fazer uma obra em atenção à Deus e a meu semelhante, que é o público”.

    Além desse espetáculo, dirigido por André Paes Leme e regido pelo maestro Henrique Morelenbaum, Elomar contabiliza um portifólio de dez óperas escritas. Mas ele mesmo nunca se interessou por assistir óperas. “Há uns dez anos assisti à primeira ópera. Tenho formação musical européia, mas dei as costas aos estrangeiros e me voltei à latinidade”, detalha. “Todo meu cancioneiro tem o cunho sertanejo e as cores tão-somente do Brasil”, acrescenta o autor.

    enredo Como o próprio Elomar define, A Carta é a história de uma mulher qualquer em qualquer nação que coincidiu em se chamar Maria e nascer no sertão nordestino. A história da garota, de 18 anos, é transferida para o centro de São Paulo. Lá, Maria trabalha numa fábrica e se corresponde com seu noivo, um vaqueiro do interior da Bahia.

    A personagem conhece seu infortúnio quando é seqüestrada e seduzida pelo filho “pleibói” do patrão. Maria entrega-se às drogas oferecidas pelo rapaz e chega ao fundo do poço, desolada e arrependida de, um dia, ter abandonado o sertão. “Desde que existe gente, debaixo desse sol e dessa lua, existe a pressão do grande sobre o pequeno”, relata Elomar. A montagem é narrada a partir de uma carta que Maria escreve para sua mãe, na qual derrama lágrimas de saudades do Nordeste.

    Na pele da protagonista, estão as cantoras líricas Carolina Faria e Paloma Godoy. O elenco se completa com Sylvia Salustti, Gilberto Chaves, Marcelo Sáder, Marina Considera e Jorge Matias. Todos eles, cantores líricos de prestígio no meio acadêmico do eixo Rio-São Paulo.

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