Num primeiro momento, a idéia de degustar Caetano cantando quase tudo em inglês pode soar recusável a parte de seu público, especialmente aquele que o acompanha desde os anos 60. Mas vale romper a resistência diante da oportunidade de vê-lo, ao vivo, nessa sua nova aventura musical. Isso porque, em Caetano, até o estranho veste como luva.
A Foreign Sound, em cartaz até amanhã na Sala Villa-Lobos, traz mais emoção do que o CD homônimo, em função da empatia única – um tanto fleumática, porque interatividade não é exatamente a praia do baiano – que Caetano sabe orquestrar com a platéia. Sob essa ótica, é impraticável qualquer analogia com seus trabalhos anteriores.
Desta vez, o doce arrebatamento que paira sobre a maioria dos shows dele esteve mais sofisticado. E tal mérito, Caetano bem o sabe e reconhece, tem muito a ver com a finíssima sintonia entre sua proposta e a escolha dos músicos. Ele fez questão de apresentar todos eles como “maravilhosos”. Não exagerou.
Além de Jacques Morelenbaum – que regeu a Orquestra de Brasília revezando com seu violoncelo –, a guitarra de Pedro Sá foi show à parte. Valorizou a música-título, A Foreign Sound, e ainda ganhou solo nos sambas que se destacaram do repertório estrangeiro. “Minha pátria é a língua portuguesa”, disse Caetano, citando Fernando Pessoa. Mandou bem.
Mesmo com o esmero ao interpretar clássicos como Feelings e Diana – a de Try a Little Tenderness desceu redonda, mas Cássia Eller foi quem o fez melhor até hoje –, é em nosso idioma que Caetano brilha. Aí cai a ficha dessa investida nos americanismos. Está bem lá, em Não tem Tradução, música de Noel Rosa cantada na abertura do show: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português”.