Há dois tipos de anorexia: restritiva e compulsiva/purgativa. O mais comum é o primeiro, no qual a pessoa restringe a alimentação até emagrecer muito. Nesse caso, ainda não há indução de vômito e ingestão de laxantes.
O segundo grupo é caracterizado pela compulsão de comer seguida de purgações. As pessoas comem descontroladamente até não agüentarem mais e, depois, vomitam. Misturam jejuns prolongados à ingestão compulsiva de alimentos. Muitas vezes, a quantidade ingerida é tão grande que nem é necessário induzir o vômito: o corpo se encarrega de eliminar o excesso. Existem casos raros de pacientes que rompem o estômago de tanto comerem.
A estudante Cláudia (*nome fictício) tem 25 anos e é acompanhada por um programa específico para anoréxicos. Há pouco mais de dois anos, ela, que mede 1,68 metro, chegou a pesar 32 quilos. “Eu acho que comecei a perceber que alguma coisa estava errada comigo quando encontrei em meu armário alguns sacos de lixo contendo meu próprio vômito. Eu deixava para resolver isso depois e esquecia dos saquinhos que eu havia escondido”, conta.
Cláudia não sabe exatamente quando começou a deixar de comer, mas se lembra de um comentário que a mãe fez, dizendo que ela estava com uns quilinhos a mais. “Confesso que nunca tinha percebido isso, mas sei que, a partir daquele dia, eu tive a impressão de que pesava cem quilos a mais”, afirma.
Para tentar resolver o problema, a estudante entrou em uma academia. Começou a malhar uma hora por dia, mas depois aumentou para quatro. “Eu comia e malhava”, diz. “Um dia, comi tanto que fiquei enjoada demais. E, no meio da madrugada, vomitei tudo. Senti uma sensação boa depois e, a partir daí, descobri que poderia comer muito e vomitar”, relata.
A perda de peso de Cláudia começou a ser evidente e excessiva, o que fez com que seus pais a levassem ao médico, que recomendou algumas vitaminas, mas ela não tomou. “Em outra consulta, levei dentro da minha roupa alguns saquinhos contendo areia para mostrar um peso maior quando subisse na balança”, confessa. Até que, um dia, desmaiou. Foi levada para o hospital e ficou internada.
Ao começar o tratamento com um psicólogo, ela percebeu que estava atendendo a um desejo inconsciente de agradar a mãe. “Ser magra era um sonho dela, era ser perfeita para ela. E eu não podia falhar”, diz.
Cláudia passou muito tempo emagrecendo, sendo internada e comendo pouco. “Até que uma colega da clínica morreu devido a complicações da anorexia. De repente, me dei conta da minha real aparência. Eu estava ficando como ela, esquelética. Eu também iria morrer”, conta.
Hoje, Cláudia controla bem a doença. Tem o apoio de familiares e médicos, além do tratamento psicológico. “Acredito que estou conseguindo viver um dia de cada vez. Mas ainda preciso de muletas”, afirma a estudante. Os nomes são fictícios, a pedido dos entrevistados