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Uma briga de mais de 60 anos está sendo revivida na era digital. Noel Rosa e Wilson Batista, dois dos maiores sambistas de todos os tempos, protagonizaram nos anos 30 um bate-boca musical sem paralelo na história da música popular. A polêmica está sendo lançada no formato CD, no meio de uma série de discos que recuperam os primeiros discos que traziam mais de uma música em cada lado, os chamados dez polegadas, pais do velho long-playing, ou LP. E o melhor é que o CD é completado por outra obra histórica e fundamental: as primeiras gravações de Orfeu da Conceição, musical que marcou o início da parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

A briga entre Noel Rosa e Wilson Batista aconteceu em 1935, mas só 20 anos depois, em 1956, é que ela foi registrada na íntegra, com as vozes de Roberto Paiva cantando os sambas de Batista e de Francisco Egydio interpretando Noel. Os arranjos do maestro Gaya são sensacionais, e a qualidade sonora é muito boa. O curioso é que os quatro sambas de Noel fizeram muito sucesso, embora a maioria das pessoas não saiba que eles foram compostos no meio de uma briga. Os de Wilson Batista ficaram relegados aos jornais de modinhas (que traziam as letras dos novos sambas), já que não foram gravados na época – exceto Lenço no Pescoço, registrada por Sylvio Caldas.

A briga entre os bambas começou quando Noel, depois de ouvir Lenço no Pescoço, no qual Wilson Batista proclamava seu orgulho em ser vadio, escreveu um clássico, Rapaz Folgado. A resposta não deixava dúvida quanto as intenções de Noel, que se sentiu incomodado ao ver mais uma vez a palavra malandro ser usada como sinônimo de sambista. “Lenço no pescoço, tamanco arrastando…”, começa o samba de Batista, que ouviu logo a resposta: “Deixa de arrastar o teu tamanco, pois tamanco nunca foi sandália…”.

Wilson Batista ainda não era o sambista famoso que se tornaria anos depois, mas já tinha seus admiradores nos botequins do Rio antigo. Ferido pelo golpe inesperado, reagiu, não sacando a navalha, mas com um novo samba, Mocinho da Vila – “Se não quiser perder o nome, cuide do seu microfone e deixe quem é malandro em paz… fala de malandro quem é otário”, cantou. O erro fatal foi tocar no nome de Vila Isabel, bairro e cidadela de Noel, que respondeu com mais uma jóia: “Quem é você, que não sabe o que diz…”, começa Palpite Infeliz.

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O troco de Wilson Batista foi ainda mais violento. Anos mais tarde ele confessaria ao cartunista Nássara que se arrependeria mas, muito jovem, atacou o complexo de feiúra de Noel. O uso do fórceps no parto provocou seqüelas no rosto de Noel, que tinha o queixo afundado e uma ligeira paralisia no lado direito. “Boa impressão nunca se tem, quando se encontra um certo alguém, que até parece o Frankstein…” canta ele em Frankstein. Conta-se que Noel comprou todas as modinhas que encontrou para rasgá-las. Mas preferiu responder com um canto de amor à Vila Isabel.

Feitiço da Vila é um dos melhores sambas de Noel, parceria com o pianista Vadico. “Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila ao abraçar o samba…”. Wilson Batista achou que o compositor estava fugindo da briga e, gostando da notoriedade que a briga com o grande Noel Rosa dava a ele, um desconhecido, voltou ao ataque com Conversa Fiada. “É conversa fiada dizerem que o samba lá na vila tem feitiço…”. E que ataque: “…antes de irem dormir dêem duas voltas no cadeado”.

Noel foi demolidor na resposta: “João Ninguém, que não é velho nem moço, come bastante no almoço pra se esquecer do jantar”. Era sua palavra final. Wilson Batista ainda tentou ferir o contendor com Terra de Cego, mas o absurdo do samba, que tentava desqualificar Noel como sambista – “És o abafa da Vila, bem sei, mas na terra de cego quem tem um olho é rei” –, mostrou a fragilidade do duelista.

Noel não duraria muito mais, morreu em 1937 , aos 26 anos, consagrado como um dos maiores compositores brasileiros. Wilson Batista estava começando a fazer sucesso, não como o abusado que enfrentou Noel – de quem se tornou amigo – com samba, mas com algumas belas canções como Oh Seu Oscar e Acertei no Milhar.

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A briga entre Noel Rosa e Wilson Batista aconteceu em 1935, mas só 20 anos depois, em 1956, é que ela foi registrada na íntegra, com as vozes de Roberto Paiva cantando os sambas de Batista e de Francisco Egydio interpretando Noel. Os arranjos do maestro Gaya são sensacionais, e a qualidade sonora é muito boa. O curioso é que os quatro sambas de Noel fizeram muito sucesso, embora a maioria das pessoas não saiba que eles foram compostos no meio de uma briga. Os de Wilson Batista ficaram relegados aos jornais de modinhas (que traziam as letras dos novos sambas), já que não foram gravados na época – exceto Lenço no Pescoço, registrada por Sylvio Caldas.

A briga entre os bambas começou quando Noel, depois de ouvir Lenço no Pescoço, no qual Wilson Batista proclamava seu orgulho em ser vadio, escreveu um clássico, Rapaz Folgado. A resposta não deixava dúvida quanto as intenções de Noel, que se sentiu incomodado ao ver mais uma vez a palavra malandro ser usada como sinônimo de sambista. “Lenço no pescoço, tamanco arrastando…”, começa o samba de Batista, que ouviu logo a resposta: “Deixa de arrastar o teu tamanco, pois tamanco nunca foi sandália…”.

Wilson Batista ainda não era o sambista famoso que se tornaria anos depois, mas já tinha seus admiradores nos botequins do Rio antigo. Ferido pelo golpe inesperado, reagiu, não sacando a navalha, mas com um novo samba, Mocinho da Vila – “Se não quiser perder o nome, cuide do seu microfone e deixe quem é malandro em paz… fala de malandro quem é otário”, cantou. O erro fatal foi tocar no nome de Vila Isabel, bairro e cidadela de Noel, que respondeu com mais uma jóia: “Quem é você, que não sabe o que diz…”, começa Palpite Infeliz.

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Feitiço da Vila é um dos melhores sambas de Noel, parceria com o pianista Vadico. “Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila ao abraçar o samba…”. Wilson Batista achou que o compositor estava fugindo da briga e, gostando da notoriedade que a briga com o grande Noel Rosa dava a ele, um desconhecido, voltou ao ataque com Conversa Fiada. “É conversa fiada dizerem que o samba lá na vila tem feitiço…”. E que ataque: “…antes de irem dormir dêem duas voltas no cadeado”.

Noel foi demolidor na resposta: “João Ninguém, que não é velho nem moço, come bastante no almoço pra se esquecer do jantar”. Era sua palavra final. Wilson Batista ainda tentou ferir o contendor com Terra de Cego, mas o absurdo do samba, que tentava desqualificar Noel como sambista – “És o abafa da Vila, bem sei, mas na terra de cego quem tem um olho é rei” –, mostrou a fragilidade do duelista.

Noel não duraria muito mais, morreu em 1937 , aos 26 anos, consagrado como um dos maiores compositores brasileiros. Wilson Batista estava começando a fazer sucesso, não como o abusado que enfrentou Noel – de quem se tornou amigo – com samba, mas com algumas belas canções como Oh Seu Oscar e Acertei no Milhar.

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