Bandas que criam muitas espectativas com o CD de estréia nem sempre conseguem corresponder à altura no temeroso e ratificante segundo trabalho. A inglesa The Libertines – considerada o Strokes da Europa – passou no teste com o ótimo álbum homônimo que acaba de ser lançado no Brasil, uma prova contundente de que o grupo veio para ficar.
O novo do Libertines tem uma levada pop muito parecida com o disco anterior, Up the Bracket, lançado no final de 2002. E que ninguém leve o termo “pop” aqui às raias de sua tradução mais fácil e massificante. A música dos britânicos é vigorosa no sentido mais garageiro que se possa imaginar.
As comparações já feitas, ad nauseum, com a inesquecível The Clash com certeza vão continuar. Dizem inclusive que a voz do líder do Libertines, Carl Barat, é igual a de Joe Strummer. O recente CD tem, em vários momentos, a energia punk vista em trabalhos daquela banda, como na ótima, Can´t Stand me Now, que abre o disco e na pulsante Arbeit Macht Frei.
Na verdade, o Clash, cujo ex-guitarrista Mick Jones está produzindo o disco do Libertines, é apenas a referência mais visível no grupo “queridinho” da imprensa inglesa. É possível vislumbrar flashes de outras possíveis influências dos rapazes. Em Narcissist, por exemplo, a batida inicial lembra, You Really Got Me, dos também marcantes Kinks. Dá para ouvir ainda toques de Pistols e dos conterrâneos Oasis. Com algum esforço e liberdade poética temos até ecos dos contemporâneos Pavement, um dos grupos alternativos mais legais surgido – e já falecido – nos últimos anos.
É interessante ver que o Libertines não tem medo nem de beber em fontes inspiradoras, assim como não estão nem aí quando resolvem utilizar recursos musicais gastos e que muitos evitam. É um tal de sha-la-la, shub-shub e la-la-la, no disco como há muito não se ouvia. E o que é melhor, soam frescas e convincentes. Efeitos inexplicáveis do rock´n roll.
Esse é o espírito do indie-rock com jeitão punk do Libertines. Um som sem amarras e com refrões, usando um velho chavão, extremamente “ganchudos”. Difícil resistir à melodia de What Became of The Likely Lads, que tem tudo para estourar nas rádios.
Os integrantes do grupo mantêm uma tradição de despojamento e alguma “porralouquice”, marca registrada de seus patrícios, a exemplo do Oasis – com a eterna briga dos irmãos Gallagher. O guitarrista da banda, o viciado Pete Doherty vive às turras com o líder Carl Barat e num entra e sai da formação.
Brigas e confusões fizeram com que o Libertines se transformasse em arroz de festa nos tablóides. Mas, a destemperança interna parece não ter afetado muito a turma. O segundo CD é um primor musical até mesmo superior ao primeiro. Um álbum do mais puro, desencanado e bem tocado rock, daqueles que pedem volume alto, e, com certeza, um seríssimo candidato a um dos melhores discos de 2004.