O 36º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro terá um momento de nostalgia na noite de hoje. É que o longa da vez é o esperado Glauber o Filme, Labirinto do Brasil, de Silvio Tendler. O documentário, de 90 minutos, é o resultado de um trabalho que começou no dia da morte do cineasta Glauber Rocha, em 22 de agosto de 1981, aos 42 anos.
Cercado de polêmicas por conta dos protestos da família Rocha, o documentário traz cenas do velório e do enterro de Glauber e depoimentos de pessoas como o do escritor João Ubaldo Ribeiro, do cineasta Cacá Diegues, do compositor Manduka e de outras personalidades.
A idéia do filme surgiu no dia em que Glauber morreu, na Clínica Bambina, onde Joaquim Pedro de Andrade e Cacá Diegues aguardavam notícias do estado de saúde do amigo. “Eles pensaram nisso e começamos a filmar o velório”, explica Tendler. “Eu coordenei o grupo que tinha, entre outras pessoas, Fernando Duarte, Walter Carvalho (um estreante na época) e Cristiano Maciel”, conta.
Logo depois, o filme ficou parado. Somente em 1998 Tendler retomou o projeto. Durante três anos ele fez um trabalho de pesquisa e recolheu os depoimentos. “O resultado é uma grande homenagem a Glauber Rocha e à geração dele”, afirma.
O cineasta lembra que o momento da morte de Glauber foi muito dramático. “Perdemos em pouco tempo muitos talentos: Joaquim Pedro de Andrade, Ney São Paulo. Temos que aprender a cultivar nossos heróis.” Tendler teve pouco convívio com Glauber. “Não éramos amigos. Eu era de uma geração mais nova e o olhava como um ídolo.”
O longa é uma tentativa de construção e desconstrução de Glauber. “Faço uma construção labiríntica, que mescla depoimentos a trechos de filmes, com computação gráfica (linguagem contemporânea). É legal, bonito e barato, linguagem semelhante à que usei em Oswaldo Cruz – O Médico”, explica.
Este festival será especial para o cineasta. “É a primeira vez que participo, como cineasta, concorrendo ao prêmio principal. Dirigi o festival de 1996, fui espectador em várias edições, mas o frio na barriga para saber a opinião do público sentirei pela primeira vez”, conta.
E ele tem boas chances de agradar ao público brasiliense. Além da temática do documentário, Tendler fez questão de usar imagens de Brasília nos últimos instantes do filme. “O Glauber Rocha viveu aqui e adorava Brasília”, justifica.
Perguntado sobre quem ganhará o prêmio de Melhor Longa, ele sai pela tangente: “Sei que tenho chances porque o Glauber é um personagem muito querido em Brasília. Mas os concorrentes são muito fortes. Assisti ao filme do Sganzella e achei lindíssimo”.